👨‍⚕️ Para profissionais

Urgências e Emergências · Médicos e profissionais

Protocolo de Anafilaxia

Reconhecimento e manejo imediato

Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.

1. Definição

A anafilaxia é uma reação alérgica (hipersensibilidade) grave, de início agudo, potencialmente fatal, que resulta da liberação sistêmica de mediadores inflamatórios por mastócitos e basófilos. Pode envolver pele e mucosas, os sistemas respiratório, cardiovascular e/ou gastrointestinal.

A anafilaxia com risco de vida é caracterizada pelo acometimento respiratório e/ou cardiovascular, podendo não envolver pele ou mucosas em até 20% dos casos — o que torna o reconhecimento clínico um desafio relevante na prática pediátrica. Os principais desencadeantes em crianças são alimentos (leite de vaca, amendoim, ovos, frutos do mar, nozes), medicamentos (antibióticos beta-lactâmicos, anti- inflamatórios) e picadas de insetos.

2. Critérios Diagnósticos

O diagnóstico é clínico, baseado na história e no exame físico. Pela SBP (Guia Prático de Atualização nº 6, 2021), que adota os critérios da World Allergy Organization (WAO 2020), a anafilaxia é altamente provável quando qualquer um dos dois critérios abaixo for atendido:

CritérioCondição
1 — Com pele ou mucosaInício agudo (minutos a algumas horas) com envolvimento de pele, mucosa ou ambos (urticária generalizada, prurido ou rubor, edema de lábios, língua ou úvula) e pelo menos um: (a) comprometimento respiratório (dispneia, broncoespasmo, estridor, hipoxemia); (b) PA reduzida ou disfunção de órgão-alvo (hipotonia/colapso, síncope, incontinência); (c) sintomas gastrintestinais graves (cólica intensa, vômitos repetidos), sobretudo após alérgeno não alimentar
2 — Mesmo sem peleInício agudo de hipotensão, broncoespasmo ou envolvimento laríngeo (estridor, alteração da voz, odinofagia) após exposição a alérgeno conhecido ou altamente provável para aquele paciente

Hipotensão na criança (SBP 2021/WAO 2020): queda > 30% da PA sistólica basal, ou PA sistólica < 70 mmHg + (2 × idade em anos) de 1 a 10 anos; < 90 mmHg acima de 10 anos. O consenso GA²LEN 2024 (Dribin, 2025) propõe critérios simplificados, com a mesma ideia: acometimento respiratório ou cardiovascular agudo após alérgeno provável, com ou sem pele. O site segue a SBP (WAO 2020).

3. Manifestações Clínicas por Sistema

Sistema                  Manifestações
Pele                     Urticária, flushing, eritema, edema facial, moteamento cutâneo
                         Edema de lábios, língua ou orofaringe, aperto severo na garganta,
Mucosas
                         disfagia; em lactentes: lambedura repetitiva dos lábios
                         Sibilância, desconforto respiratório, hipoxemia, tosse, dispneia, estridor,
Respiratório
                         rouquidão; em lactentes: choro rouco
                         Hipotensão, síncope, tontura, alteração do nível de consciência; em
Cardiovascular
                         lactentes: taquicardia inexplicada persistente
Sistema                  Manifestações
Gastrointestinal         Dor abdominal intensa, vômitos recorrentes, diarreia

4. Conduta Imediata

4.1 Medidas Gerais

Ao reconhecer a anafilaxia, agir imediatamente na seguinte sequência:

1. Chamar ajuda e acionar o SAMU (192) se fora de ambiente hospitalar

2. Remover o alérgeno, se possível (ex.: retirar o ferrão de inseto)

3. Posicionamento — conforme situação clínica (ver quadro abaixo)

4. Ofertar oxigênio suplementar por máscara (10–15 L/min) e manter SpO₂ entre 94% e 98% (evitando hiperóxia), inclusive durante o encaminhamento

5. Monitorar sinais vitais continuamente: FC, FR, SpO₂, PA

6. Administrar adrenalina IM imediatamente — não postergar

Posicionamento conforme situação clínica

4.2 Tratamento Medicamentoso

Medicação                  Dose e Via                          Observações
                                                               Repetir a cada 5–15 min (até 3 doses).
                           0,01 mg/kg sol. 1:1.000 ·
                                                               Monitorar FC. Único tratamento que
Adrenalina IM (1ª          máx. 0,3 mg (criança) /
                                                               modifica o curso da anafilaxia. Pode ser
linha — SEMPRE)            0,5 mg (adolescente) ·
                                                               aplicada sem remover a roupa se
                           face anterolateral da coxa
                                                               necessário.
                           5–10 mL/kg IV nos
                                                               Monitorar sinais de sobrecarga de
Expansão volêmica          primeiros 5 min; até 30
                                                               volume. SF 0,9% como 1ª escolha.
                           mL/kg na 1ª hora
                           0,05–1 mcg/kg/min em                Reservada para casos refratários com
Adrenalina EV              bomba de infusão (SBP 2019,         hipotensão após múltiplas doses IM e
contínua                   padrão do site), titular            ressuscitação volêmica. Monitoração
                           Diluição: 1 mg em 100 mL            cardíaca contínua.
                           SF → 10 mcg/mL
                           50 mcg/kg/dose = 1 jato/2
Salbutamol                                                     Para broncoespasmo persistente após
                           kg (máx. 10 jatos) com
inalatório                                                     adrenalina.
                           espaçador

Fontes das doses: adrenalina IM 0,01 mg/kg (1 mg/mL) — SBP 2021 (máx. 0,3 mg na criança; adolescente e adulto 0,2–0,5 mg), repetir a cada 5–15 min; SEUP/AEP 2024 usa máx. 0,5 mg; o site adota 0,3 mg na criança e 0,5 mg no adolescente. Expansão 5–10 mL/kg nos primeiros 5 min e até 30 mL/kg na 1ª hora — SBP 2021. Salbutamol 50 mcg/kg/dose = 1 jato/2 kg (máx. 10 jatos) com espaçador — SBP 2021 (nebulização: 0,07–0,15 mg/kg, máx. 5 mg, a cada 20 min até 3 doses). Adrenalina em infusão — faixa do PALS do site.

Medicação                  Dose e Via                          Observações
Anti-histamínico           VO, já estável, nas doses           Ação sintomática (prurido, urticária).
H1 de 2ª geração           de Urticária aguda do site          NÃO previne progressão. NÃO substitui
(cetirizina,               (ex.: cetirizina 2–6 anos           a adrenalina. A SBP (2021) lista
desloratadina,             2,5 mg 12/12 h; desloratadina       difenidramina e prometazina IV, mas
fexofenadina)              6–11 meses 1 mg/dia)                anti-H1 de 1ª geração não são usados
                                                               no site (sedação confunde a avaliação
                                                               neurológica); a SBP indica 2ª geração
                                                               por ≥ 7 dias após a alta.
Corticosteroide            1–2 mg/kg IV (máx. 60 mg;           Pouca ação no tratamento agudo. Pode
(metilprednisolona)        dose SBP 2021, máximo do            reduzir risco de reação bifásica.
                           PALS do site)
                           20–30 mcg/kg (máx. 1                Reservado para pacientes em uso de
Glucagon                   mg) bolus EV lento em 5             beta-bloqueadores, nos quais a
                           min                                 adrenalina pode ter resposta reduzida.

Fontes das doses: metilprednisolona 1–2 mg/kg/dia IV — SBP 2021 (máx. 60 mg, padrão do PALS do site); a SBP 2021 diz que o corticoide tem pouca ou nenhuma ação no tratamento agudo. Glucagon 20–30 mcg/kg IV em 5 min (máx. 1 mg), seguido de infusão de 5–15 mcg/min titulada — Canadian Paediatric Society (Cheng, 2011); a SBP 2021 cita só a infusão de 5–15 mcg/min. Anti-H1 de 2ª geração — doses de Urticária aguda do site (bula).

⚠ Atenção — Prioridade da Adrenalina

5. Considerações em Populações Especiais

Condição                   Consideração Clínica
                           Maior risco de broncoespasmo grave e morte. Adrenalina IM deve ser
Criança com asma           administrada ainda mais precocemente. Associar salbutamol inalatório
                           desde o início.
Uso de beta-               Resposta reduzida à adrenalina. Considerar glucagon como
bloqueadores               adjuvante. Pode exigir doses maiores de adrenalina.
                           Risco aumentado de anafilaxia grave e recorrente. Toda criança com
Mastocitose                mastocitose deve ter autoinjetor (decisão do site); o consenso
                           ECNM/AAAAI/EAACI o reserva às formas extensas/difusas ou com
                           anafilaxia prévia. Encaminhar ao alergologista.
Lactentes < 6              Sinais atípicos: irritabilidade, taquicardia inexplicada, palidez, recusa
meses                      alimentar. Alto índice de suspeita clínica necessário.

Mastocitose: toda criança com mastocitose deve ter autoinjetor (decisão do site); o consenso ECNM/AAAAI/EAACI o reserva às formas extensas/difusas ou com anafilaxia prévia (ref. 11). A SBP e o Ministério da Saúde não têm posição sobre o tema. Veja Mastocitose cutânea na criança (Dermatologia pediátrica).

6. Reação Bifásica

Cerca de 10% dos pacientes (SBP 2021) podem apresentar recorrência dos sintomas, sobretudo 8 a 12 horas após o episódio inicial, mesmo sem nova exposição ao alérgeno (a literatura descreve até 24 h).

7. Critérios de Alta e Orientações

7.1 Critérios Objetivos para Alta

A alta pode ser considerada após período de observação adequado e todos os critérios abaixo atendidos:

7.2 Orientações na Alta

8. Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

9. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Documento e versãoGPA nº 6, Alergia, 31/05/2021Sem protocolo nacional de anafilaxia pediátrica localizadoAAAAI/ACAAI 2023 (Golden, 2024); GA²LEN 2024 (Dribin, 2025)NG258, 27/05/2026 (substitui a CG134)SEUP 4ª ed., 02/2024Sem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSeguem o NICE/RCUK
CritériosWAO 2020 (2 critérios)—2023: NIAID/WAO; 2024: GA²LENNão define; documentar o episódioWAO 2020——Seguem o NICE
Adrenalina IM0,01 mg/kg; máx. 0,3 mg criança, 0,5 mg adolescente—0,01 mg/kg; máx. 0,5 mgAdrenalina IM (RCUK 2021)0,01 mg/kg; máx. 0,5 mg——Seguem o RCUK
ObservaçãoLeve 6–8 h; grave 24–48 h—Individualizar2 h / 6 h / 12 h; < 16 anos sem alta: internar2 h / 6 h / 12 h——Seguem o NICE
Dispositivo na altaAutoinjetor (0,15 mg < 30 kg; 0,3 mg)Sem autoinjetor registrado (Anvisa)Autoinjetor; neffy aprovado pela FDA 2024–20252 autoinjetoresAutoinjetor——Seguem o NICE
Corticoide e anti-H1Adjuvantes; corticoide 5–7 dias e anti-H1 ≥ 7 dias após a alta—Não de rotina para reação bifásicaNão abordadoAdjuvantes, após a adrenalina——Seguem o NICE
EncaminhamentoAlergologista em todos os casos—AlergologistaServiço especializado em alergiaAlergologista——Seguem o NICE

Leitura: todas as referências concordam no essencial — adrenalina IM 0,01 mg/kg na coxa, imediata, repetida em 5–15 min, como único tratamento de primeira linha; anti-histamínicos e corticoides só como adjuvantes; autoinjetor e encaminhamento ao alergologista na alta. As divergências: (1) dose máxima na criança — 0,3 mg pela SBP, 0,5 mg pela AAAAI e pela SEUP; (2) tempo de observação — 6–8 h nos leves e 24–48 h nos graves pela SBP, contra alta possível após 2 h no NICE NG258 (2026) e na SEUP 2024; (3) corticoide após a alta — prescrito pela SBP, não recomendado de rotina pela AAAAI 2023; (4) adrenalina intranasal — aprovada nos EUA e na Europa, sem registro no Brasil, onde nem o autoinjetor tem registro regular. O Ministério da Saúde não tem protocolo nacional de anafilaxia pediátrica localizado. Posição do site: segue a SBP (2021) — critérios WAO, adrenalina 0,01 mg/kg (máx. 0,3 mg na criança e 0,5 mg no adolescente), observação 6–8 h / 24–48 h — e prescreve sempre o autoinjetor.

10. Referências

1. Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Departamento Científico de Alergia. Anafilaxia: atualização 2021. Guia Prático de Atualização nº 6, 31/05/2021. sbp.com.br

2. Dribin TE, et al. Anaphylaxis definition, overview, and clinical support tool: 2024 consensus report — a GA²LEN project. J Allergy Clin Immunol. 2025;156(2):406–417.e6. jacionline.org

3. Golden DBK, et al. Anaphylaxis: a 2023 practice parameter update. Ann Allergy Asthma Immunol. 2024;132(2):124–176. annallergy.org

4. NICE. Anaphylaxis: assessment and referral after emergency treatment. NICE guideline NG258, 27/05/2026 (revisão de vigilância 06/2026). nice.org.uk

5. Sociedad Española de Urgencias de Pediatría (SEUP). Anafilaxia en Urgencias. Protocolos diagnósticos y terapéuticos en Urgencias de Pediatría, 4ª ed., 02/2024. seup.org

6. World Allergy Organization. Overview of allergic disease: Anaphylaxis — WAO White Book on Allergy 2026, cap. 2.11. World Allergy Organ J. 2026;19(3):101338. doi:10.1016/j.waojou.2026.101338

7. Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI). Lista consolidada de importadoras de adrenalina autoinjetável (consultada em 10/2026). asbai.org.br

8. U.S. Food and Drug Administration. Neffy® (epinephrine nasal spray) — prescribing information, revisão 03/2025. accessdata.fda.gov

9. Cheng A; Canadian Paediatric Society. Emergency treatment of anaphylaxis in infants and children. Paediatr Child Health. 2011;16(1):35–40 (glucagon). PMC3043023

10. Royal Children's Hospital Melbourne. Clinical Practice Guidelines — Anaphylaxis (atualizada em 10/2025). rch.org.au

11. Mastocitose: Hartmann K, et al. Cutaneous manifestations in patients with mastocytosis: consensus report of the ECNM, AAAAI and EAACI. J Allergy Clin Immunol. 2016;137(1):35–45. Carter MC, et al. Management of Mastocytosis and Mast Cell Activation in Children. J Allergy Clin Immunol Pract. 2026;14(1):30–42. doi:10.1016/j.jaip.2025.11.016

Veja também, nesta Biblioteca: Urticária aguda; PALS — Suporte Avançado de Vida em Pediatria; Mastocitose cutânea na criança.