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PALS — Suporte Avançado de Vida em Pediatria

Reanimação, ritmos de parada e algoritmos

Material de apoio ao ensino e à prática; não substitui as diretrizes vigentes nem o julgamento clínico. As condutas devem ser individualizadas.

1. Visão Geral do PALS

Público-alvo                      Lactentes, crianças e adolescentes (exceto RN em sala de
                                  parto)
Objetivo                          Reconhecer e tratar estados pré-parada, PCR e pós-
                                  ressuscitação
Base científica                   AHA/AAP 2025 (Partes 6 e 8) / ILCOR 2025; SBP
                                  (DC Terapia Intensiva nº 7/2021, sobre a AHA 2020)
Certificação                      Válida por 2 anos; renovação a cada ciclo

O PALS organiza a abordagem pediátrica em avaliações sistemáticas e algoritmos baseados em evidências, priorizando o reconhecimento precoce da deterioração clínica antes da parada cardiorrespiratória.

2. Avaliação Sistemática Pediátrica

2.1 Triângulo de Avaliação Pediátrica (TAP)

Avaliação visual rápida (< 30 s) sem tocar na criança:

Figura 1 – Triângulo de Avaliação Pediátrica (TAP) – avaliação visual em < 30 segundos.

2.2 ABCDE Primário

A – Airway                        Permeabilidade da via aérea; posicionar, aspirar, dispositivos
B – Breathing                     FR, saturação, ausculta, esforço respiratório
C – Circulation                   FC, PA, pulsos, TEC, perfusão periférica
D – Disability                    Nível de consciência (AVPU / GCS), glicemia, pupilas
E – Exposure                      Temperatura, rash, trauma; prevenir hipotermia

Figura 2 – Avaliação Primária Sequencial (ABCDE): tratar problemas à medida que são identificados.

2.3 ABCDE Secundário

História SAMPLE + exame físico completo + exames complementares dirigidos.

3. Reconhecimento e Classificação dos Estados

Clínicos

3.1 Insuficiência Respiratória

Obstrução alta                    Estridor inspiratório, sialorreia, postura em tripé – croup,
(supraglótica)                    epiglotite
Obstrução baixa                   Sibilância expiratória, prolongamento – broncoespasmo,
(infraglótica)                    bronquiolite
Doença do parênquima              Crepitações, hipoxemia – pneumonia, edema, SDRA
Distúrbio do controle             Respiração irregular ou apneia – intoxicação, TCE, convulsão

3.2 Choque

Hipovolêmico                      Taquicardia, TEC > 2 s, pulsos finos, extremidades frias, oligúria
Distributivo (séptico)            Fase quente: pele quente, pulso amplo; Fase fria:
                                  vasoconstrição, má perfusão
Cardiogênico                      Taquicardia, B3, hepatomegalia, edema, má perfusão sem
                                  hipovolemia
Obstrutivo                        Tamponamento, pneumotórax hipertensivo, TEP – pulso
                                  paradoxal, ingurgitamento jugular

HIPOTENSÃO = CHOQUE DESCOMPENSADO – intervenção imediata!

3.3 Valores Normais por Faixa Etária

Referência essencial para definir taquicardia, bradicardia e hipotensão em pediatria:

                                                                     PA sist.                         VC
Faixa Etária          FC mín        FC máx        PA sist. mín                      FR (irpm)
                                                                     normal                         (mL/kg)

RN (0–28 dias) 100 205 ≥ 60 mmHg 65–85 mmHg 30–60 6–8

80–100

Lactente (1–12 m) 100 180 ≥ 70 mmHg 25–50 6–8

≥

Pré-escolar (1–                                                       90–110
                         80             140        70+(2×idade)                        20–30           6–8
      5a)                                                             mmHg

≥ 95–120

Escolar (6–11a) 75 118 70+(2×idade) 18–25 6–8

Adolescente ≥                                                         110–130
                         60             100        ≥ 90 mmHg                           12–20           6–8
     12a                                                               mmHg

FC normal — tabela de vigília do PALS (AHA/AAP; padrão do site, decisão do Dr. Stefani de 03/10/2026): recém-nascido (0–28 dias) 100–205 bpm; lactente (1–12 meses) 100–180; 1–2 anos 98–140; pré-escolar (3–5 anos) 80–120; escolar (6–11 anos) 75–118; adolescente 60–100. Dormindo, a FC é menor (cerca de 90–160 no RN e no lactente, 80–120 de 1 a 2 anos, 65–100 de 3 a 5 anos, 58–90 no escolar e 50–90 no adolescente). Na linha do pré-escolar acima, 80–140 abrange as duas faixas do PALS (98–140 de 1 a 2 anos; 80–120 de 3 a 5 anos). Interpretar com a criança calma, considerando febre, dor e choro; as faixas simplificadas antigas (por exemplo, lactente 100–160) não são mais usadas no site. Na tabela de arritmias abaixo, "p/ idade" remete a estas faixas.

Hipotensão pediátrica (PA sistólica abaixo do limite mínimo):

Atenção: CHOQUE COMPENSADO pode cursar sem hipotensão — reconhecer por taquicardia, TEC > 2 s, pulsos finos e má perfusão!

3.4 Parâmetros Ventilatórios Pós-IOT

Volume corrente (VC)              6–8 mL/kg de peso ideal (evitar hiperdistensão; ajustar pela
                                  expansão torácica)
PEEP inicial                      5 cmH₂O (aumentar até 8–10 em SDRA ou edema pulmonar)
FR pós-IOT                        Lactente (< 1 ano): 25–30 irpm · Criança (1–8 anos): 20–25 irpm
                                  · > 8 anos: 15–20 irpm
FiO₂ inicial                      100% → reduzir para manter SpO₂ 94–98% (evitar hiperoxia
                                  pós-PCR; AHA/AAP 2025: 94–99%)
Pressão de platô                  < 30 cmH₂O (estratégia protetora pulmonar)
ETCO₂ alvo                        35–45 mmHg (capnografia contínua obrigatória); evitar
                                  hiperventilação
Confirmação                       Capnografia + ausculta bilateral + Rx tórax (carina em T3–T4);
                                  descartar intubação seletiva

4. Manejo das Emergências Respiratórias

4.1 Oxigenioterapia e Via Aérea

4.2 Sequência Rápida de Intubação (SRI)

Pré-oxigenação O₂ 100% por 3–5 min (ou 8 respirações profundas)

Pré-medicação                     Atropina não é rotina; considerar 0,02 mg/kg IV se alto risco
                                  de bradicardia, sem dose mínima como pré-medicação (AHA 2020)
Indução                           Ketamina 1–2 mg/kg IV ou Etomidato 0,3 mg/kg IV
Bloqueio NM                       Succinilcolina 1–2 mg/kg IV ou Rocurônio 1,2 mg/kg IV

Confirmação Capnografia (ETCO₂), ausculta bilateral, radiografia de tórax

4.3 Broncoespasmo Grave

5. Manejo do Choque

5.1 Acesso Vascular

5.2 Expansão Volêmica

Cristaloide em alíquotas de 10–20 mL/kg, reavaliando após cada bolus (FC, PA, TEC, perfusão, consciência, sinais de sobrecarga); com UTI disponível, até 40–60 mL/kg na 1ª hora; preferir cristaloide balanceado (Ringer lactato), SF 0,9% como alternativa (AHA/AAP 2025; SBP, DC nº 7/2021; Surviving Sepsis Campaign 2026). Choque hemorrágico: hemoderivados precoces em vez de cristaloide (AHA 2020/2025). No choque cardiogênico, fluido individualizado, com cautela (RCUK 2025: 5 mL/kg).

5.3 Vasopressores e Inotrópicos

Norepinefrina                     0,05–2 mcg/kg/min – choque distributivo/vasoplégico (séptico
                                  quente); na sepse, adrenalina ou noradrenalina são a 1ª linha,
                                  sem preferência (SSC 2020 e 2026; SBP 2019 e DC nº 7/2021)
Dopamina                          5–20 mcg/kg/min – só se adrenalina e noradrenalina não
                                  estiverem disponíveis (SSC 2020; SBP 2019)
Dobutamina                        2–20 mcg/kg/min – choque cardiogênico
Adrenalina                        0,05–1 mcg/kg/min – choque, anafilaxia grave refratária
                                  (SBP 2019, padrão do site; faixa antiga 0,01–1 — AHA)
Epinefrina IM                     0,01 mg/kg (máx 0,3 mg na criança / 0,5 mg no adolescente) – anafilaxia (vasto lateral da coxa)

5.4 Manejo do Choque Séptico

Pacote da 1ª hora (Surviving Sepsis Campaign pediátrica 2026; definição pelos critérios de Phoenix 2024, adotados pela SBP — DC nº 133/2024; detalhes em "Sepse e choque séptico na criança"):

6. Ritmos Cardíacos e Arritmias

Tabela-resumo comparativa de todas as arritmias relevantes em Pediatria:

Arritmia            FC            Onda P               QRS                    Conduta PALS
                  (bpm)

Sinusal Normal p/ idade Presente/normal Estreito Observar; tratar causa

Taquicardia             > idade     Presente/normal      Estreito          Tratar causa (febre, dor,
Sinusal                                                                    hipovolemia)
Bradicardia             < 60        Presente/normal      Estreito          Hipóxia? → O₂. Atropina /
Sinusal                                                                    Adrenalina se sintomática
BAV 1º Grau             60–100      Presente; PR >       Estreito          Observar; monitorar
                                    200ms
BAV 2º Mobitz I         Variável    Presente; PR         Estreito (ou      Monitorar; Atropina se sintomático
                                    cresce               ausente)
BAV 2º Mobitz II        Variável    PR fixo; P           Estreito/largo    Marcapasso! Risco de BAV total
                                    bloqueada
BAV 3º Grau             20–45       Dissociada do        Largo             EMERGÊNCIA: Atropina +
(BAVT)                  (esc.)      QRS                  (escape           Adrenalina + Marcapasso
                                                         ventricular)
TSV                     > 180–      Ausente ou           Estreito          Estável: vagal + Adenosina |
                        220         retrógrada                             Instável: CVS
Flutter Atrial          Atrial      Dente de serra       Estreito          CVE; Amiodarona; controle de FC
                        ~300;       (F)
                        Ventr.
                        75–150

Fibrilação Atrial Irregular Ausente (ondas Estreito; RR CVE se instável; anticoagulação;

f) irregular amiodarona

WPW                    Variável     Presente; PR <       Alargado          TSV c/ WPW estável: adenosina
                                    120ms                (onda delta)      OK | FA c/ WPW: EVITAR
                                                                           adenosina, digoxina, verapamil
                                                                           (risco FV) | CVE se instável |
                                                                           Ablação eletiva
EV isolada             Normal +     Ausente antes        Largo,            Monitorar; tratar causa (hipóxia,
                       EV           do EV                bizarro           eletrólitos)
TV                     150–250      Dissociada (AV)      Largo >           Pulso: CVS 0,5–1 J/kg | Sem
                                                         90ms              pulso: Desfibrilação
Torsades de            150–250      Ausente              Rotacional        Mg²⁺ 25–50 mg/kg IV | Desfibrilação |
Pointes                                                  (polimórfico)     Corrigir QT
Fibrilação             Caótica      Ausente              Caótico           DESFIBRILAÇÃO 2 J/kg → 4 J/kg
Ventricular                                                                → ≥4 J/kg
AESP                   Qualquer     Pode estar           Organizado        RCP + Adrenalina; investigar
                                    presente             (sem pulso)       5H/5T
Assistolia             0            Ausente              Ausente           RCP + Adrenalina; investigar
                                                                           5H/5T

6.1 Ritmos de Referência

6.1.1 Ritmo Sinusal Normal FC dentro da faixa de vigília do PALS para a idade (tabela 3.3; 60–100 bpm só no adolescente). Onda P visível e positiva em DII, com morfologia normal. PR 120– 200 ms. QRS estreito (< 90 ms). RR regular.

Figura 3 – Ritmo Sinusal Normal – FC 70 bpm. Referência comparativa para identificação das arritmias.

6.1.2 Taquicardia Sinusal FC acima da faixa de vigília do PALS para a idade (tabela 3.3); em geral < 220 bpm no lactente e < 180 bpm na criança. Onda P normal, precede cada QRS. Causa identificável: febre, dor, hipovolemia, hipóxia, ansiedade. Tratar a causa.

Figura 4 – Taquicardia Sinusal – FC 130 bpm. Onda P normal, QRS estreito. Diferencia-se da TSV pela FC variável e P visível.

6.2 Bradicardia Sinusal

FC < 60 bpm. Causa mais comum em pediatria: HIPÓXIA – resolver a causa antes de medicar!

Figura 5 – Bradicardia Sinusal – FC 38 bpm. Onda P normal, QRS estreito, RR aumentado. Tratar causa; Atropina se sintomática.

6.3 Bloqueios Atrioventriculares (BAV)

6.3.1 BAV 1º Grau – PR prolongado PR > 200 ms (em crianças > 180 ms), constante. Todo impulso atrial conduz ao ventrículo. Benigno. Causas: vagotonia, digoxina, hipercalemia, miocardite, cardiopatias congênitas. Conduta: observar e monitorar.

Figura 6 – BAV 1º Grau – PR = 320 ms. Todo P conduz ao QRS. QRS estreito, RR regular. Conduta: observação.

6.3.2 BAV 2º Grau Mobitz I (Wenckebach) PR aumenta progressivamente a cada batimento até que uma onda P é bloqueada (sem QRS), e o ciclo reinicia. RR diminui progressivamente dentro do grupo, com pausa longa após o bloqueio. Geralmente benigno; raramente requer tratamento.

Figura 7 – BAV 2º Grau Mobitz I (Wenckebach) – Padrão 3:2. PR cresce 140→240 ms até bloqueio. Benigno, monitorar.

6.3.3 BAV 2º Grau Mobitz II PR CONSTANTE (normal ou prolongado), com bloqueio súbito de ondas P (sem QRS) sem aviso prévio. Indica lesão abaixo do nó AV (feixe de His ou ramos). RISCO de progredir para BAV total. Indicação de marcapasso!

Figura 8 – BAV 2º Grau Mobitz II – Padrão 3:1. PR fixo; 2 de cada 3 P bloqueadas abruptamente. MARCAPASSO indicado.

6.3.4 BAV 3º Grau – Completo (BAVT) Nenhum impulso atrial conduz ao ventrículo. Ondas P e QRS completamente independentes (dissociação AV). Ritmo ventricular de escape: juncional (estreito, 40– 60 bpm) ou idioventricular (largo, 20–40 bpm). EMERGÊNCIA cardíaca.

Figura 9 – BAV 3º Grau (BAVT) – Ondas P 88 bpm e escape juncional 38 bpm: completamente dissociados. EMERGÊNCIA.

6.4 Taquiarritmias Supraventriculares

6.4.1 Taquicardia Supraventricular (TSV) Arritmia mais comum em pediatria. FC fixa > 220 bpm (lactente) / > 180 bpm (criança). QRS estreito. P retrógrada ou ausente. Início e término súbitos. Mecanismo mais comum: reentrada (via acessória ou nodal).

Figura 10 – TSV – FC 220 bpm. QRS estreito, P retrógrada após QRS. RR absolutamente regular. Início/término súbitos.

ESTÁVEL: manobra vagal (gelo na face em lactentes; Valsalva) → Adenosina 0,1 mg/kg IV rápido (máx 6 mg; pode repetir 0,2 mg/kg, máx 12 mg).

INSTÁVEL (hipotensão, alteração de consciência): cardioversão sincronizada 0,5–1 J/kg → 2 J/kg.

Recorrente: Amiodarona 5 mg/kg IV em 30 min ou propranolol oral; encaminhamento para eletrofisiologia.

6.4.2 Flutter Atrial Ritmo atrial rápido e regular (ondas F "dente de serra") a ~300/min, com bloqueio AV variável (2:1 → FC 150 bpm; 4:1 → 75 bpm). FC ventricular geralmente regular. Incomum em pediatria saudável; associado a cardiopatias congênitas.

Figura 11 – Flutter Atrial – Ondas F em dente de serra 300/min; condução 2:1 (FC ventricular 150 bpm). Linha de base sem isoelétrica.

6.4.3 Fibrilação Atrial (FA) Atividade atrial caótica e desorganizada (ondas f de baixa amplitude na linha de base). Resposta ventricular irregularmente irregular. QRS estreito (quando sem aberrância). Rara em pediatria sem cardiopatia estrutural ou tireotoxicose.

Figura 12 – Fibrilação Atrial – Linha de base fibrilatória, sem ondas P identificáveis. RR irregularmente irregular.

6.4.4 Síndrome de Wolff-Parkinson-White (WPW) Pré-excitação ventricular via via acessória (feixe de Kent). Tríade: PR curto (< 120 ms), onda delta (empastamento inicial do QRS) e QRS alargado. Risco de FA de alta condução (> 250/min → FV!).

Figura 13 – WPW – PR curto ~80 ms, onda delta visível (empastamento inicial), QRS alargado. Risco de FA com condução rápida.

6.5 Extrassístoles e Taquiarritmias Ventriculares

6.5.1 Extrassístole Ventricular (EV) Batimento prematuro originado nos ventrículos. QRS largo (> 90 ms) e bizarro, sem onda P precedente. Pausa compensatória após a EV. Isoladas em corações sãos: benignas. Frequentes, em salvas ou sobre onda T (fenômeno R/T): monitorar.

Figura 14 – EV – Batimento prematuro de QRS largo e bizarro (seta), sem P precedente, seguido de pausa compensatória.

6.5.2 Taquicardia Ventricular (TV) Sequência de 3 ou mais EV. FC 150–250 bpm. QRS largo (> 90 ms) e bizarro. Dissociação AV (P e QRS independentes). Grave – pode causar instabilidade hemodinâmica e degenerar em FV.

Figura 15 – TV Monomórfica – FC 175 bpm. QRS largo e uniforme. Sem ondas P identificáveis. Risco de FV.

COM PULSO estável: Amiodarona 5 mg/kg IV em 20–60 min; Lidocaína 1 mg/kg IV; Cardioversão sincronizada 0,5 J/kg.

COM PULSO instável: Cardioversão sincronizada 0,5–1 J/kg → 2 J/kg.

SEM PULSO: Algoritmo FV/TV sem pulso – Desfibrilação 2 J/kg → 4 J/kg → ≥4 J/kg. 6.5.3 Torsades de Pointes (TV Polimórfica) Forma especial de TV com morfologia QRS rotacional ("torção em torno da linha de base"). Associada a QT longo (congênito ou adquirido: hipoK, hipoMg, drogas). Pode ser autolimitada ou degenerar em FV.

Figura 16 – Torsades de Pointes – QRS polimórfico com amplitude rotacional. Contexto de QT longo. Pode degenerar em FV.

6.5.4 Fibrilação Ventricular (FV) Atividade elétrica ventricular caótica e desorganizada, sem débito cardíaco. Causa imediata de morte súbita. Tratamento único efetivo: desfibrilação precoce.

Figura 17 – Fibrilação Ventricular – Atividade elétrica caótica, sem QRS identificável. Desfibrilação imediata.

6.6 PCR: AESP e Assistolia

6.6.1 AESP – Atividade Elétrica Sem Pulso Ritmo organizado no monitor (qualquer padrão: sinusal, juncional, ventricular lento), mas SEM pulso palpável e SEM débito cardíaco. O ECG "engana". Investigar e tratar causas reversíveis (5H/5T) é fundamental.

Figura 18 – AESP – Ritmo organizado (escape lento, QRS levemente alargado) SEM pulso palpável. RCP + Adrenalina + 5H/5T.

6.6.2 Assistolia Ausência de atividade elétrica ventricular. Linha isoelétrica. Confirmar em 2 derivações (afastar artefato de cabo desconectado). Pior prognóstico entre os ritmos de PCR.

Figura 19 – Assistolia – Linha isoelétrica. Sem atividade elétrica. Confirmar em 2 derivações. RCP + Adrenalina + 5H/5T.

7. Parada Cardiorrespiratória (PCR) Pediátrica

7.1 Epidemiologia e Causas

Causa mais comum                  Hipóxia / insuficiência respiratória (diferente do adulto – FV
                                  menos frequente)
Ritmos chocáveis                  FV e TV sem pulso (~10–15% das PCR pediátricas intra-
                                  hospitalares)
Ritmos não chocáveis              Assistolia e AESP (~85–90% das PCR pediátricas)
Sobrevida com alta                ~30–40% intra-hospitalar; ~10% extra-hospitalar

7.2 RCP de Alta Qualidade

Técnica de Compressão por Faixa Etária

Lactente (< 1 ano)                2 polegares com mãos envolvendo o tórax ou região hipotenar
                                  de 1 mão (AHA 2025: a técnica dos 2 dedos foi abandonada por
                                  não atingir a profundidade) · Ponto: metade inferior do esterno,
                                  logo abaixo da linha intermamilar
Criança (1 ano –                  1 ou 2 mãos sobrepostas · Ponto: metade inferior do esterno ·
puberdade)                        Profundidade ≥ 5 cm
Adolescente / adulto              2 mãos sobrepostas · Ponto: metade inferior do esterno ·
                                  Profundidade 5–6 cm

DEA / Desfibrilador Pediátrico

7.3 Algoritmo – Ritmo Não Chocável (Assistolia / AESP)

Figura 20 – Algoritmo PCR Pediátrica – Assistolia / AESP. Adrenalina o mais cedo possível (idealmente nos primeiros 5 min do início das compressões — AHA 2020/2025; SBP, DC nº 7/2021) e depois a cada 3–5 min. Investigar 5H e 5T.

7.4 Algoritmo – Ritmo Chocável (FV / TV sem pulso)

Figura 21 – Algoritmo PCR Pediátrica – FV / TV sem pulso. Desfibrilação 2 → 4 → ≥ 4 J/kg (máx. 10 J/kg ou dose do adulto) (AHA/AAP 2025). Adrenalina após o 2º choque; amiodarona ou lidocaína após o 3º. RCUK/ERC 2025 usam 4 J/kg desde o 1º choque (divergência; o site segue a AHA/AAP).

7.5 Medicações na PCR

Adrenalina                        0,01 mg/kg IV/IO (= 0,1 mL/kg de 1:10.000); máx 1 mg; a cada
                                  3–5 min
Amiodarona                        5 mg/kg IV/IO em bolus (FV/TV refratária); máx 300 mg/dose;
                                  até 3 doses
Lidocaína                         1 mg/kg IV/IO; alternativa à amiodarona
Bicarbonato                       1 mEq/kg IV/IO: não rotineiro; só hipercalemia, intoxicação
                                  por TCA/bloqueador de sódio (AHA 2020/2025)
Cálcio                            Gluconato 10% 60 mg/kg (= 0,6 mL/kg; máx. 2 g) ou cloreto 10%
                                  20 mg/kg (= 0,2 mL/kg; máx. 1 g, via central): não rotineiro na
                                  PCR; só hipocalcemia, hipercalemia, intoxicação por bloqueador
                                  de cálcio, hipermagnesemia (AHA 2020/2025; RCUK 2025)
Glicose                           Hipoglicemia, a partir de 1 mês: 0,5–1 g/kg IV (SG 25% 2–4
                                  mL/kg ou SG 10% 5–10 mL/kg); RN: SG 10% 2 mL/kg (MS, SAMU 192)
Magnésio                          25–50 mg/kg IV (máx. 2 g): Torsades de Pointes

Doses de adrenalina, amiodarona, lidocaína, adenosina e energias de choque: AHA/AAP 2025 (Parte 8) e AHA 2020, inalteradas; SBP (DC nº 7/2021) segue a AHA. RCUK 2025: mesmas doses de adrenalina (10 mcg/kg, máx. 1 mg) e amiodarona (5 mg/kg, máx. 300 mg).

8. Cuidados Pós-Ressuscitação

8.1 Metas

8.2 Controle de Temperatura Alvo

Comatosos pós-PCR: medir a temperatura central continuamente e prevenir ativamente a febre, mantendo ≤ 37,5 °C (AHA/AAP 2025); o controle de temperatura dura pelo menos 24 h e a febre é evitada por pelo menos 72 h (RCUK/ERC 2025). A hipotermia induzida (32–34 °C) deixou de ser rotina; fica a critério da UTI.

8.3 Monitoramento e Suporte Orgânico

9. Situações Especiais

9.1 Anafilaxia

Figura 22 – Algoritmo de Manejo da Anafilaxia Pediátrica. Adrenalina IM é a primeira e mais importante medida.

9.2 Estado de Mal Epiléptico (EME)

Por que 5 minutos — t1 e t2 (ILAE 2015)

O estado de mal passou a ser definido com 5 minutos (t1 da ILAE 2015) porque é o ponto em que a crise tônico-clônica tende a se prolongar: depois dele, a chance de parar sozinha cai muito, e por isso o tratamento começa aí. Na monitorização por vídeo-EEG, a maioria das crises convulsivas dura menos de 5 min (Trinka et al., Epilepsia 2015). Em 407 crianças com a primeira crise não provocada, as durações formaram dois grupos — 76% com média de 3,6 min e 24% com média de 31 min —; quanto mais a crise durava, menor a chance de parar nos minutos seguintes, e depois de 5–10 min era improvável que cedesse sozinha (Shinnar et al., Ann Neurol 2001;49:659–64). O t2 = 30 minutos é o limite a partir do qual há risco de lesão neuronal (ILAE 2015): o antigo limiar de 30 min marca o risco de dano, e não o momento de tratar.

Fase 1: 0–5 min                   Estabilização: Monitorar, O₂, acesso vascular, glicemia, PA,
                                  ECG
Fase 2: 5–20 min                  Midazolam IM 0,2 mg/kg, IN 0,2 mg/kg ou bucal 0,3 mg/kg (máx.
Primeira Linha                    10 mg) ou Diazepam IV/IO 0,2–0,3 mg/kg (máx. 10 mg) ou retal
                                  0,5 mg/kg (máx. 10 mg) (Protocolo de Estado de Mal Convulsivo)
Fase 2: 20–30 min                 Conduta do site (MS — PCDT Epilepsia 2018): Fenitoína 15–20
Segunda Linha                     mg/kg IV (máx. 1.500 mg; ≤ 1 mg/kg/min e ≤ 50 mg/min; ECG e PA)
                                  OU Fenobarbital 15 mg/kg IV (≤ 100 mg/min; máx. 1.000 mg).
                                  Preferível onde houver (divergência): Levetiracetam 60 mg/kg
                                  IV (máx. 4.500 mg) em 5–10 min. Alternativa: Ácido valpróico
                                  40 mg/kg IV (máx. 3.000 mg) em 5–10 min, só ≥ 2 anos, sem
                                  hepatopatia, doença metabólica/mitocondrial ou gestação.
Fase 3: refratário                EME refratário (falha de BDZ + 2ª linha): UTI pediátrica —
(não esperar 30–40 min)           IOT e coma induzido com EEG contínuo (ver alerta e doses
                                  abaixo). Super-refratário: anestesia geral (isoflurano),
                                  titulada por anestesiologista.
Alerta do Dr. Stefani — tempo da fenitoína

A fenitoína leva cerca de 20 min para infundir; somada aos benzodiazepínicos, o controle pode passar de 30 min (limite ILAE 2015 para risco de lesão neuronal). Prepare a 2ª linha já na 1ª dose de benzodiazepínico e inicie logo após a 2ª dose, sem esperar. Onde houver levetiracetam IV, ele é preferível por infundir em 5–10 min (NICE NG217; APLS; ESETT, EcLiPSE e ConSEPT 2019).

Levetiracetam injetável no Brasil: Antara IV (Eurofarma, Reg. MS 1.0043.1481) — uso fora da bula no estado de mal; a bula indica uso IV a partir de 6 anos. Doses e fontes completas: Protocolo de Estado de Mal Convulsivo.

Atenção, 30 minutos — estado de mal refratário

Atenção, 30 minutos: a partir do t2 (ILAE 2015) cresce o risco de lesão neuronal. Se a crise não ceder com o benzodiazepínico (2 doses) e a medicação de 2ª linha, é estado de mal REFRATÁRIO. Não espere os 30 min nem tente uma 3ª droga de 2ª linha por muito tempo: acione a UTI pediátrica para intubação e COMA INDUZIDO com infusão contínua de anestésico, para suprimir a atividade epiléptica, com monitorização eletroencefalográfica contínua (alvo: cessar as crises no EEG ou surto-supressão).

Coma induzido — conduta de UTI/anestesiologia: intubação, ventilação mecânica e suporte hemodinâmico (esses agentes causam hipotensão e podem exigir vasopressor — NCS 2012); doses tituladas pelo EEG contínuo.

Manter o controle eletrográfico por 24–48 h e retirar a infusão gradualmente (NCS 2012).

9.3 Trauma Pediátrico

Abordagem CABC: Controle de hemorragia catastrófica primeiro, depois A → B → C → D → E.

10. Doses de Emergência por Peso

Peso estimado: Fita de Broselow ou (Idade + 4) × 2 kg para crianças de 1–10 anos.

Adrenalina PCR                        0,01 mg/kg IV/IO (ex: 10 kg = 0,1 mg = 1 mL de 1:10.000)
Atropina                              0,02 mg/kg IV (máx 0,5 mg); mín 0,1 mg só na bradicardia —
                                      na pré-medicação da SRI, sem dose mínima (AHA 2015/2020)
Adenosina                             0,1 mg/kg IV rápido (máx 6 mg 1ª dose); 0,2 mg/kg (máx 12
                                      mg 2ª dose)
Amiodarona                            5 mg/kg IV/IO (máx 300 mg/dose)
Magnésio                              25–50 mg/kg IV (máx 2 g) – Torsades / asma grave
                                      (dose única em 20 min; padrão do site)
Midazolam (estado de mal)             IM 0,2 mg/kg; IN 0,2 mg/kg; bucal 0,3 mg/kg (máx. 10 mg)
Diazepam (estado de mal)              IV/IO 0,2–0,3 mg/kg; retal 0,5 mg/kg (máx. 10 mg)
Ketamina                              1–2 mg/kg IV; 4–5 mg/kg IM
Glicose (≥ 1 mês)                     0,5–1 g/kg: SG 25% 2–4 mL/kg ou SG 10% 5–10 mL/kg;
                                      RN: SG 10% 2 mL/kg (MS, SAMU 192)
Desfibrilação                         2 J/kg → 4 J/kg → ≥ 4 J/kg (máx 10 J/kg ou dose adulto)
                                      (AHA/AAP 2025)
Cardioversão sync.                    0,5–1 J/kg → 2 J/kg (TSV instável, TV com pulso, Flutter,
                                      FA)

11. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Documento e versãoDC Terapia Intensiva nº 7, 27/04/2021 (resume a AHA 2020); sem atualização após a AHA 2025Protocolos SAMU 192 de SAV (2014, revisão 2016; republicados em gov.br, 04/2024)AHA/AAP 2025, Partes 6 e 8 (coautora)Sem diretriz de RCP; o NHS segue o RCUK 2025 (27/10/2025)SEUP 2024 e ERC 2025 (PLS)Sem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSeguem NICE/RCUK 2025
Compressão no lactenteSem posição posterior à AHA 2025Protocolo de 2016, anterior à mudança2 polegares ou região hipotenar de 1 mão; 2 dedos abolida (2025)RCUK 2025: 2 polegaresERC 2025: 2 polegaresSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaRCUK 2025
Ventilação com via aérea avançada1 a cada 2–3 s (20–30/min) (2021)Protocolo de 20161 a cada 2–3 s, conforme idade (2025)RCUK 2025: 25/20/15/10 por min por idadeERC 2025: igual ao RCUKSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaRCUK 2025
Adrenalina na PCRPrecoce, até 5 min (2021)0,01 mg/kg0,01 mg/kg (máx. 1 mg) 3–5 min; precoce no não chocávelRCUK 2025: 10 mcg/kg, máx. 1 mg, 3–5 minERC 2025: igualSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaRCUK 2025
DesfibrilaçãoSegue AHA 2020 (2 → 4 J/kg)Protocolo de 20162 → 4 → ≥ 4 J/kg, máx. 10 J/kg (2025)RCUK 2025: 4 J/kg desde o 1º choqueERC 2025: 4 J/kgSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaRCUK 2025
Choque séptico (fluido e vasoativo)10–20 mL/kg, balanceado; adrenalina ou noradrenalina (2021); Phoenix (DC nº 133/2024)20 mL/kg (2016)10–20 mL/kg com reavaliação (2025); SSC 202610 mL/kg (NG254, 2025); RCUK: noradrenalina 1ª linhaSEUP 2024: 10–20 mL/kg; adrenalina ou noradrenalinaSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSeguem o NICE
Pós-PCRNão aborda (2021)Protocolo de 2016PA > p10; febre ≤ 37,5 °C (2025)RCUK 2025: PA > p10 ≥ 24 h; evitar febre ≥ 72 h; SpO2 94–98%ERC 2025: igualSem posição específica localizadaSem posição específica localizadaRCUK 2025
2ª linha do estado de malSem documento oficial (revisão Liberalesso, Residência Pediátrica 2018: fenitoína, fenobarbital, valproato)PCDT Epilepsia (Portaria Conjunta nº 17, 21/06/2018): fenitoína 18 (15–20) mg/kg ou fenobarbital 15 mg/kgAES 2016: fosfenitoína, valproato ou levetiracetam (equivalentes)NG217 (2022, atualizada 08/2026): levetiracetam, fenitoína ou valproato; prefere o levetiracetamSEUP 01/2025: levetiracetam, fenitoína ou valproato (equivalentes)Sem posição específica localizadaSem posição específica localizadaSeguem o NICE

Leitura: há concordância no essencial — RCP de alta qualidade com 100–120 compressões/min e profundidade de 1/3 do tórax, 15:2 com dois socorristas, adrenalina 0,01 mg/kg (máx. 1 mg) precoce e a cada 3–5 min, amiodarona 5 mg/kg ou lidocaína 1 mg/kg, adenosina 0,1 → 0,2 mg/kg, ventilação sem hiperventilar e prevenção da febre no pós-PCR. As divergências: (1) energia do 1º choque — AHA/AAP 2025 2 J/kg, depois 4 J/kg; RCUK/ERC 2025 4 J/kg desde o início; (2) ventilação com via aérea avançada — 20–30/min pela AHA e pela SBP; 10–25/min, no limite inferior para a idade, pelo RCUK/ERC; (3) vasoativo no choque — adrenalina ou noradrenalina sem preferência (SBP 2021, SSC 2026, AHA) × noradrenalina como 1ª linha vasopressora (RCUK/ERC); (4) compressão no lactente — a AHA 2025 aboliu os 2 dedos; a SBP ainda não publicou documento de RCP posterior a isso (o Guia Prático nº 222/2025, sobre engasgo, mantém 2 dedos nas compressões torácicas do desengasgo). O Ministério da Saúde (SAMU 192) é de 2016 e não acompanha as diretrizes de 2020 e 2025. Posição do site: a SBP (DC nº 7/2021) adota a AHA; por isso o texto segue a AHA/AAP 2025, a versão mais recente da diretriz que a SBP segue, com as doses padrão do site (glicose 0,5–1 g/kg a partir de 1 mês, RN SG 10% 2 mL/kg — MS, SAMU 192; magnésio 25–50 mg/kg, máx. 2 g; adrenalina IM 0,01 mg/kg na anafilaxia; ceftriaxona 100 mg/kg, máx. 4 g, na suspeita meningocócica; SpO2 entre 94% e 98% no encaminhamento, evitando hiperóxia). Na 2ª linha do estado de mal, a SBP não tem documento oficial; o MS (PCDT 2018) indica fenitoína ou fenobarbital; AES 2016, SEUP 2025 e os ensaios ESETT, EcLiPSE e ConSEPT (2019) mostram eficácia equivalente de levetiracetam, fenitoína e valproato, e o NICE NG217 prefere o levetiracetam. O site segue o MS, com o alerta sobre o tempo de infusão da fenitoína, e recomenda o levetiracetam onde houver (decisão do Dr. Stefani, 01/10/2026).

12. Referências Bibliográficas

Este documento foi elaborado com base nas seguintes fontes primárias e diretrizes internacionais e nacionais:

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Documento elaborado para fins educacionais e de referência clínica.

As informações não substituem o julgamento clínico nem os protocolos institucionais vigentes. — Fim do documento —