Reumatologia pediátrica · Artrites

Abordagem da criança com artrite (mono, oligo e poliartrite)

Diferencial pelo número de articulações e pelo tempo de evolução, exame articular, exames iniciais, o que não pedir de rotina e quando encaminhar ao pronto-socorro ou ao reumatologista pediátrico, segundo a SBP 2020 e o PCDT da AIJ 2026

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), conduta ambulatorial e critérios para encaminhar ao especialista, ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais (convergências e divergências). 📄 Baixar em PDF

Em resumo

Artrite é derrame articular ou, sem derrame, pelo menos dois de: dor à mobilização, limitação, dor à palpação e calor; artralgia é dor sem esses sinais. O raciocínio segue dois eixos: número de articulações (mono, oligo até 4, poli ≥ 5) e tempo (aguda < 6 semanas, em geral infecciosa, reativa ou pós-viral; crônica ≥ 6 semanas, que sugere artrite idiopática juvenil — AIJ). Monoartrite aguda com febre é artrite séptica até prova em contrário (🔴); dor intensa, noturna e desproporcional, com palidez, petéquias, visceromegalias ou citopenias, é leucemia até prova em contrário (🔴). Ficam em casa, com reavaliação garantida, a sinovite transitória do quadril típica e a artrite pós-viral ou reativa leve em bom estado geral. Exames iniciais: hemograma com esfregaço, VHS, PCR e radiografia comparativa; FAN e fator reumatoide não são exames de triagem. Artrite de 6 semanas ou mais, recorrente ou com sinais sistêmicos vai ao reumatologista pediátrico, e corticoide só depois de excluir leucemia (SBP 2020).

1.O que é e como se apresenta

Definições (SBP, Reumatologia, 2020; AEP 2020; PCDT da AIJ, 2026):

  • Artrite: derrame, ou pelo menos dois de limitação, dor à mobilização, dor à palpação e calor. Hiperemia da pele sugere celulite, e não artrite (AEP).
  • Número: monoartrite (1), oligoartrite (2–4), poliartrite (≥ 5), como na classificação da AIJ (ILAR, adotada pelo PCDT). A AEP chama de poliartrite 2 ou mais articulações.
  • Tempo: aguda < 6 semanas, contínua ou intermitente; crônica ≥ 6 semanas, limiar que define a AIJ.
  • Padrão: simultâneo (virais), migratório (febre reumática), aditivo (AIJ) (AEP).

Na criança, a artrite chega como claudicação, recusa a andar, rigidez matinal ou choro à troca de fralda, mais que como queixa de dor.

Padrão Pensar primeiro Não pode passar
Monoartrite aguda Sinovite transitória do quadril, trauma, artrite reativa, Kingella kingae em < 4 anos (quadro brando, PCR baixa) Artrite séptica e osteomielite 🔴; hemartrose; leucemia; gonococo
Oligo ou poliartrite aguda Pós-viral (parvovírus B19, rubéola, hepatite B, arbovírus — chikungunya pode se prolongar); reativa; pós-estreptocócica; vasculite por IgA Febre reumática; leucemia e linfoma; lúpus; AIJ sistêmica e síndrome de ativação macrofágica
Artrite ≥ 6 semanas AIJ (exclusão), doença inflamatória intestinal, psoríase Tuberculose; leucemia; doenças do tecido conjuntivo
"Falsas artrites" Urticária, celulite, edema da vasculite por IgA —

Entidades principais:

  • Artrite séptica: monoartrite aguda, febre, dor intensa, recusa de mobilizar; 50% antes dos 2 anos; quadril, joelho e tornozelo em 75%; o lactente pode não ter febre (SBP 2020). Ver Osteomielite e artrite séptica na criança.
  • Sinovite transitória do quadril: 3 a 8–9 anos, após virose, bom estado, afebril, dor na virilha, coxa ou joelho; resolve em dias. Abaixo de 3 anos quase nunca é sinovite (AEP 2020).
  • Pós-viral: poliartrite simétrica com febre baixa, exantema ou coriza, autolimitada; prolongada na hepatite C e no chikungunya (SBP 2020).
  • Reativa: asséptica, 7–10 dias após diarreia (Shigella, Salmonella, Yersinia, Campylobacter) ou infecção geniturinária (Chlamydia, gonococo), assimétrica, de membros inferiores, ligada ao HLA-B27 (SBP 2020). Pós-estreptocócica: até 10 dias após a faringite, não migratória, sem critérios de febre reumática, resposta fraca ao anti-inflamatório (AEP 2020).
  • Febre reumática: poliartrite migratória de grandes articulações que cede ao anti-inflamatório em horas a 3 dias. O Brasil é população de risco moderado a alto: a monoartrite conta como critério maior e a mono ou poliartralgia como menor (Jones 2015, na SBP 2020). Procurar cardite. Ver Febre reumática.
  • Leucemia: artralgia ou artrite pode ser o primeiro sintoma; dor noturna, intensa, intermitente e desproporcional ao edema (joelhos, tornozelos, cotovelos), com adenomegalias, hepatoesplenomegalia, anemia ou febre (SBP 2020); o hemograma pode ser pouco alterado no início. Ver Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA).
  • Doença de Lyme: não é endêmica no Brasil; considerar após viagem à América do Norte ou à Europa (SBP 2020). A síndrome de Baggio-Yoshinari (Lyme-símile brasileira) é rara e de diagnóstico especializado.
  • AIJ: artrite de causa desconhecida, início antes dos 16 anos, ≥ 6 semanas, após excluir outras causas. Ver Artrite idiopática juvenil (AIJ).

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Sinovite transitória típica: ≥ 3 anos, afebril (axilar < 37,5 °C), bom estado, apoia o membro, nenhum critério de Kocher. Artrite pós-viral ou reativa em bom estado, com apoio, sem sinais de alarme Ibuprofeno e repouso relativo em casa; reavaliação em 24–72 h na sinovite e próxima nas demais; se não melhorar ou surgir febre, investigar
🟡 Moderada Artrite ≥ 6 semanas ou recorrente; rigidez matinal, dactilite, entesite; suspeita de febre reumática sem insuficiência cardíaca; diagnóstico incerto em bom estado; monoartrite afebril em < 4 anos (Kingella); sinovite sem melhora em 48–72 h Hemograma com esfregaço, VHS, PCR, radiografia. Monoartrite < 4 anos e sinovite sem melhora: avaliação no mesmo dia com ortopedia. Febre reumática: ASLO, ECG, ecocardiograma. Artrite ≥ 6 semanas: encaminhar ao reumatologista pediátrico (prioridade se poliartrite ou queixa ocular)
🔴 Grave Febre com monoartrite; ≥ 2 critérios de Kocher ou PCR > 2 mg/dL com derrame; recusa total de apoio; < 3 meses; doença falciforme com febre; sepse. Sinais de leucemia (palidez, petéquias, equimoses, visceromegalias, linfonodomegalia, citopenias, blastos). Cardite (sopro novo, insuficiência cardíaca). Febre diária com exantema e serosite ou febre persistente com citopenias (AIJ sistêmica, SAM). Hemartrose em hemofílico. Púrpura febril Pronto-socorro no mesmo momento; artrite séptica é urgência ortopédica; leucemia vai à onco-hematologia; sem antibiótico oral e sem corticoide antes da avaliação

Fatores de risco que elevam a gravidade

  • Idade < 3 anos; quadril ou ombro acometidos.
  • Doença falciforme, imunossupressão, cateter central; varicela ou lesão de pele recentes.
  • Adolescente com exposição sexual (gonococo) ou suspeita de violência sexual.
  • Hemofilia; antibiótico ou corticoide prévios, que mascaram o quadro.

3.Diagnóstico no consultório

Anamnese: início, duração, número e padrão; febre (axilar ≥ 37,5 °C), exantema, diarreia, uretrite ou faringite recentes; dor noturna (a dor que só acorda a criança não é, sozinha, sinal de alerta — a SBP aceita que a dor de crescimento acorde, DC Reumatologia nº 4/2019 e Diretriz nº 177/2024; são alerta a dor localizada ou unilateral, a que persiste de manhã ou durante o dia, claudicação, febre, perda de peso, exame alterado e massa); rigidez matinal que melhora com o movimento; perda de peso, sangramentos; viagem e carrapato; história familiar de psoríase, doença inflamatória intestinal e espondiloartrite.

Exame articular: criança despida; observar a marcha, pedir que pule, agache e ande na ponta dos pés e nos calcanhares; examinar todas as articulações, as dolorosas por último, comparando com o lado oposto. Incluir quadris (rotação interna comparada; dor no joelho pode vir do quadril), coluna cervical, temporomandibulares, sacroilíacas, mãos, pés, enteses. Hipotrofia muscular e diferença de comprimento sugerem cronicidade (AEP 2020). O pGALS examina o sistema musculoesquelético em poucos minutos. Exame geral: pele (petéquias, psoríase, eritema marginado), olhos, linfonodos, fígado e baço, ausculta cardíaca.

Critérios de Kocher (quadril; SBP 2020): febre > 38,5 °C (critério do estudo; na conduta, febre axilar ≥ 37,5 °C com artrite já pede avaliação no mesmo dia); dor com limitação do movimento passivo e do apoio; VHS > 40 mm/1ª hora; leucócitos > 12.000/mm³. Probabilidade de artrite séptica: 0 critério < 0,2%; 1 = 3%; 2 = 40%; 3 = 93,1%; 4 = 99,6%. Não se aplicam bem ao joelho nem à Kingella.

Exames:

  • Sinovite transitória típica (🟢): nenhum exame; é a única monoartrite que dispensa sangue e punção (AEP 2020).
  • Demais — iniciais: hemograma com esfregaço, VHS e PCR; DHL e ácido úrico se houver suspeita de neoplasia (SBP 2020); função renal e hepática na poliartrite (AEP 2020).
  • Imagem: radiografia com incidências bilaterais comparativas (fratura, lesão óssea, Perthes, desmineralização da leucemia); ultrassonografia para derrame e punção guiada; ressonância na suspeita de osteomielite (SBP 2020).
  • Punção articular (ortopedista, no serviço): suspeita de artrite séptica e monoartrite sem causa clara — citologia, Gram, cultura em frasco de hemocultura, PCR para Kingella (SBP 2020; AEP 2020).
  • Conforme a suspeita: ASLO só se houver suspeita de febre reumática ou pós-estreptocócica (> 640 U/mL ou curva ascendente; SBP 2020); sorologias virais (parvovírus, chikungunya, dengue, hepatites); coprocultura e pesquisa de Chlamydia e gonococo na reativa; prova tuberculínica ou IGRA na monoartrite persistente.
  • Mielograma: na dúvida com leucemia e antes de qualquer corticoide (SBP 2020), na onco-hematologia.

Quando NÃO pedir FAN e fator reumatoide:

  • Não confirmam nem excluem AIJ e aparecem em crianças saudáveis; com HLA-B27, servem para classificar a AIJ já diagnosticada e estimar o risco de uveíte (FAN) (PCDT 2026; AEP 2020).
  • Não pedir de rotina em dor musculoesquelética, artralgia sem artrite, dor de crescimento ou artrite aguda pós-viral ou reativa: sem sinais objetivos de doença reumática, têm pouca utilidade e geram exames desnecessários (lista Choosing Wisely pediátrica do ACR, 2014).
  • Pedir com critério: artrite ≥ 6 semanas, de preferência junto ao encaminhamento, ou suspeita de doença sistêmica (lúpus: poliartrite com citopenias, nefrite, serosite, lesões de pele).

4.Tratamento e seguimento

O pediatra exclui o urgente, trata as formas autolimitadas e acompanha até a resolução completa, sem sequelas nem recorrências (SBP 2020); punção, corticoide intra-articular, metotrexato e imunobiológicos são do especialista.

  • Virais, reativas e sinovite transitória: analgésico ou curso limitado de anti-inflamatório; fisioterapia supervisionada se necessário (SBP 2020; AEP 2020).
  • Artrite séptica: drenagem e antibiótico intravenoso no hospital, pelo menos 3 semanas IV e mais 3 VO (SBP 2020) (ver o documento de Infectologia).
  • Febre reumática: erradicação do estreptococo, anti-inflamatório e profilaxia secundária com penicilina G benzatina (< 20 kg 600.000 UI; ≥ 20 kg 1.200.000 UI), conforme Febre reumática.
Medicamento Dose Intervalo Duração Observação e referência
Ibuprofeno (1ª escolha) 5–10 mg/kg/dose (analgésica e antitérmica) 6–8 h Enquanto houver dor e sinovite, com reavaliação Padrão do site; a dose anti-inflamatória (AIJ, febre reumática) é do especialista; ≥ 6 meses; evitar na suspeita de dengue, desidratação e varicela
Naproxeno 10–20 mg/kg/dia 12/12 h Curso limitado PCDT da AIJ 2026; dose máxima conforme bula; não usar na suspeita de dengue
Paracetamol 10–15 mg/kg/dose 4–6 h (máx. 5 doses/dia) Até 48–72 h sem reavaliação Padrão do site; máx. 75 mg/kg/dia e 4 g/dia; opção na suspeita de arbovirose
Dipirona 15 mg/kg/dose 6/6 h (máx. 4 doses/dia) Enquanto houver dor Padrão do site; não usar < 3 meses ou < 5 kg
  • Paracetamol: uso repetido por 48–72 h, no limite de dose, em criança desidratada, desnutrida, em jejum ou somando produtos, aumenta o risco de hepatotoxicidade. Não alternar analgésicos.
  • Anti-inflamatório não modifica o curso da AIJ nem deve ser monoterapia por mais de 2 meses (PCDT 2026): artrite que não cede vai ao reumatologista.

O que não usar: corticoide (oral, intramuscular ou intra-articular) antes de excluir leucemia e artrite séptica (SBP 2020); antibiótico oral "por via das dúvidas" na monoartrite febril; anti-inflamatório na suspeita de dengue; painel de autoanticorpos e ASLO de rotina; imobilização prolongada.

Seguimento: pós-viral e reativa resolvem em dias a semanas (chikungunya, meses); artrite que passa de 6 semanas é crônica e vai ao reumatologista.

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

Pronto-socorro no mesmo momento (🔴):

  • Febre (axilar ≥ 37,5 °C) com monoartrite, recusa de apoio ou dor óssea localizada; ≥ 2 critérios de Kocher; lactente < 3 meses com membro parado.
  • Dor articular ou óssea com palidez, petéquias, equimoses, visceromegalias, linfonodomegalia ou citopenias.
  • Sopro novo, taquicardia, dispneia ou edema na suspeita de febre reumática.
  • Febre diária com exantema evanescente ou serosite, ou febre persistente com citopenias ou alteração neurológica (AIJ sistêmica, SAM).
  • Hemartrose em hemofílico; artrite com púrpura febril ou sepse.

Reumatologista pediátrico (🟡): artrite ≥ 6 semanas ou recorrente; poliartrite sem causa; rigidez matinal, dactilite, entesite, dor lombar inflamatória; suspeita de lúpus, dermatomiosite ou vasculite; dúvida depois de afastados os sinais de alarme. Com prioridade: poliartrite, limitação funcional, olho vermelho ou fotofobia, perda de peso. Enviar hemograma, VHS, PCR e radiografias.

Como encaminhar:

  1. Contato prévio com serviço com ortopedia pediátrica e ultrassonografia, ou onco-hematologia.
  2. Analgesia (dipirona ou paracetamol); membro em posição de conforto, sem carga.
  3. Sem antibiótico oral e sem corticoide antes das culturas, da punção e do hemograma com esfregaço; antibiótico antes da remoção só na sepse ou em grande demora, após contato com o serviço.
  4. Sepse, púrpura febril ou insuficiência cardíaca: SAMU (192); oxigênio para SpO2 entre 94% e 98%; acesso venoso; na púrpura febril, ceftriaxona 100 mg/kg (máx. 4 g) se não atrasar a remoção (padrão do site).
  5. Relatório: tempo de evolução, articulações, temperatura, medicamentos já usados e exames.

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "Na sinovite do quadril, a dor melhora em 1 a 3 dias com o anti-inflamatório; se não melhorar, volte."
  • "Inchaço que dura semanas ou rigidez de manhã precisam de avaliação, mesmo sem dor forte."
  • Procurar o pronto-socorro se houver: febre com articulação inchada, quente ou muito dolorida; criança que não deixa mexer ou não apoia; dor sempre no mesmo lugar ou que continua de manhã e durante o dia; palidez, manchas roxas ou pontinhos vermelhos, sangramentos, barriga aumentada; falta de ar ou inchaço; febre alta diária com manchas na pele; olho vermelho com dor ou sensibilidade à luz.

7.Comparação com as referências

Item SBP Ministério da Saúde AAP NICE AEP Johns Hopkins Harvard Oxford / Cambridge
Documento (versão/data) DC nº 12, Artrite aguda, Reumatologia, 11/2020 PCDT da AIJ, Portaria Conjunta nº 34, 19/01/2026 Sem diretriz específica localizada NG143 (2019, atualizada 11/2021); NG95 Lyme (2018) Artritis. Diagnóstico diferencial, 2020 Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
Definição e tempo Aguda < 6 semanas Crônica > 6 semanas Sem diretriz específica localizada Edema articular ou não apoiar: risco intermediário na febre Poli = ≥ 2 articulações Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
Exames iniciais Hemograma, VHS, PCR, culturas; DHL se neoplasia Hemograma, VHS, PCR Sem diretriz específica localizada Sem posição Hemograma, bioquímica, VHS, PCR, dirigidos Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
FAN e FR Fora da artrite aguda Classificação e risco de uveíte Sem diretriz específica localizada Sem posição Só se artrite crônica; presentes em sadios Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE
Artrite séptica Punção, drenagem; IV ≥ 3 + VO 3 semanas Sem posição Sem diretriz específica localizada Sem posição Punção em toda monoartrite exceto sinovite típica; esquemas curtos Sem posição específica localizada Sem posição específica localizada Segue o NICE

Leitura: SBP (2020), Ministério da Saúde (PCDT da AIJ, 2026) e AEP (2020) concordam na definição de artrite, no limiar de 6 semanas, na AIJ como diagnóstico de exclusão, nos exames iniciais e em excluir artrite séptica e leucemia antes de corticoide. Divergem em detalhes: a AEP chama de poliartrite 2 ou mais articulações (o site usa a contagem da ILAR, adotada pelo PCDT), pede punção em toda monoartrite que não seja sinovite típica e aponta esquemas antibióticos mais curtos, enquanto a SBP mantém 3 semanas IV e 3 VO. O PCDT reserva FAN, fator reumatoide e HLA-B27 à classificação da AIJ, e a AEP lembra que aparecem em sadios — como a lista Choosing Wisely pediátrica do ACR (2014). O NICE não tem diretriz de artrite na criança. Posição adotada pelo site: a da SBP (2020) — 6 semanas, Kocher no quadril, hemograma, VHS e PCR iniciais, mielograma antes de corticoide, artrite séptica como emergência com a duração da SBP; e, como a SBP não trata do tema, FAN e fator reumatoide fora da triagem pelo PCDT do Ministério da Saúde.

Pontos práticos
  1. Conte articulações e tempo: aguda (< 6 semanas) é quase sempre infecciosa, reativa ou pós-viral; crônica (≥ 6 semanas) é AIJ até prova em contrário.
  2. Monoartrite com febre é artrite séptica: pronto-socorro, sem antibiótico oral antes da punção.
  3. Dor noturna desproporcional, palidez, petéquias ou visceromegalia: hemograma com esfregaço e onco-hematologia; nunca corticoide antes de excluir leucemia.
  4. Sinovite transitória só acima de 3 anos, afebril, em bom estado e com apoio: ibuprofeno e reavaliação em 24–72 h.
  5. FAN e fator reumatoide não diagnosticam AIJ e não são triagem de dor articular.
  6. No Brasil, monoartrite com estreptococo recente pode ser febre reumática: ausculte o coração.

Veja também, nesta Biblioteca: Artrite idiopática juvenil (AIJ), Febre reumática, Lúpus eritematoso sistêmico juvenil e Síndrome de ativação macrofágica e linfo-histiocitose hemofagocítica (HLH) (nesta área); Osteomielite e artrite séptica na criança (Infectologia); Dor em membros (dor de crescimento e sinais de alerta) e A criança que manca (claudicação aguda) (Patologias do consultório); Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA) (Oncologia); A criança que sangra — hemofilia, doença de von Willebrand e outras coagulopatias (Hematologia).

8.Fontes

  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Reumatologia. Isso é dor de crescimento ou algo mais sério? (documento científico nº 4), 2019. PDF
  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Medicina da Dor e Cuidados Paliativos. Dores comuns em pediatria: avaliação e abordagem. Diretriz nº 177, 2024. PDF
  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento Científico de Reumatologia. Artrite aguda em crianças e adolescentes. Documento Científico nº 12, 2020. PDF
  • Ministério da Saúde. PCDT da Artrite Idiopática Juvenil. Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 34, 2026. gov.br/conitec
  • AEP. Murias Loza S et al. Artritis. Diagnóstico diferencial. Protoc diagn ter pediatr, 2020;2:17-26. PDF
  • NICE. Fever in under 5s (NG143), 2019, atualizada em 2021. nice.org.uk
  • NICE. Lyme disease (NG95), 2018. nice.org.uk
  • Trapani S et al. Choosing Wisely in pediatric healthcare: a narrative review (lista pediátrica do ACR, 2014). Front Pediatr, 2023. PMC
  • Síndrome Baggio-Yoshinari (doença de Lyme-símile brasileira). Rev Assoc Med Bras, 2010. SciELO