Puericultura · Primeiro ano

Consulta de puericultura — 5 meses

Consulta mensal da SBP para preparar a alimentação complementar e o ferro dos 6 meses, avaliar rolar, sentar com apoio e balbucio e atualizar a meningocócica

Roteiro para o pediatra na consulta de 5 meses: anamnese, exame físico, crescimento, desenvolvimento, alimentação, vacinas, triagens, orientações e sinais de alerta, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A consulta de 5 meses é exclusiva do calendário mensal da SBP: não há visita correspondente no mínimo do MS, na AAP, no Reino Unido ou na PrevInfad. Por isso deve ser objetiva e preparatória para os 6 meses. Três frentes: prontidão para a alimentação complementar (sustento do tronco, interesse pela comida, perda do reflexo de protrusão da língua), com orientação prática para a família montar as primeiras refeições segundo o Guia Alimentar do MS; planejamento do ferro — pela SBP 2026, o lactente a termo sem risco inicia aos 6 meses o ciclo I com dose fixa de 10–12,5 mg/dia por 3 meses, e o hemograma de rotina não é mais indicado; e vigilância do desenvolvimento (rola, senta com apoio, transfere objetos, balbucia). Reexamine os testículos: a PrevInfad recomenda encaminhar a criptorquidia que persiste aos 6 meses. No SUS, a meningocócica C (2ª dose) é aplicada aos 5 meses; a vitamina D segue em 400 UI/dia.

1.Objetivos da consulta

  • Acompanhar crescimento e aleitamento.
  • Avaliar marcos motores, de linguagem e sociais da faixa de 4 a 6 meses.
  • Verificar sinais de prontidão para a alimentação complementar e orientar a transição.
  • Planejar o ciclo I de ferro e, nas áreas do programa, a vitamina A dos 6 meses.
  • Reexaminar testículos, olhos e quadril.
  • Atualizar a meningocócica e preparar as vacinas dos 6 meses.

2.Anamnese dirigida

  • Alimentação
    • Aleitamento exclusivo; ordenha e oferta em copinho, se a mãe voltou ao trabalho.
    • Interesse do bebê pela comida da família; oferta precoce de alimentos, sucos, chás ou açúcar.
    • Tipo de leite além do materno; se leite de vaca integral, confirmar ferro e alimentação complementar iniciados aos 4 meses.
    • Condições da cozinha e da água usada no preparo dos alimentos.
  • Eliminações: padrão das fezes; constipação.
  • Sono: horas em 24 h, cochilos, despertares noturnos, local e posição.
  • Desenvolvimento e comportamento: rola nos dois sentidos, senta com apoio, pega objetos e passa de uma mão para outra, balbucia, estranha pessoas.
  • Dentição: sinais de erupção.
  • Intercorrências: infecções, sibilância, diarreia, internações.
  • Família e saúde mental dos cuidadores: cansaço, humor, rotina com creche ou cuidador, divisão de tarefas.
  • Vacinas pendentes: MenC ou MenACWY e MenB conforme a marca; doses dos 4 meses.

3.Exame físico: o essencial nesta idade

  • Olhos: reflexo vermelho; alinhamento ocular (teste de Hirschberg); fixação monocular.
  • Genitália: testículos na bolsa — criptorquidia persistente aos 6 meses deve ser encaminhada (PrevInfad); hérnia inguinal; hidrocele.
  • Quadril: abdução simétrica; assimetria de pregas e de comprimento dos membros.
  • Crânio: fontanela; plagiocefalia; perímetro cefálico.
  • Boca: erupção dentária; monilíase.
  • Pele: hemangiomas (fase de crescimento rápido ou início de involução); dermatite atópica.
  • Coração e abdome: sopros, hérnias, visceromegalias.
  • Neurológico e postura: sustento do tronco sentado com apoio; apoio nas mãos com braços estendidos em prono; alcance bimanual; tônus e simetria.

4.Crescimento

  • Medidas: peso, comprimento e perímetro cefálico nas curvas OMS 2006 da Caderneta, por sexo.
  • Esperado: manutenção do canal; o ganho de peso continua desacelerando em relação ao primeiro trimestre.
  • Quando se preocupar
    • Cruzamento de linhas de escore-z ou peso estacionado.
    • Ganho excessivo com fórmula, leite de vaca com açúcar ou espessantes, ou oferta precoce de alimentos.
    • Perímetro cefálico fora de ±2 escores-z ou cruzando linhas.
  • IMC: o escore-z do IMC entra no acompanhamento de rotina a partir dos 2 anos; antes disso, observe a relação peso/comprimento.

5.Desenvolvimento

Domínio Marcos esperados (4–6 meses)
Motor grosso Rola; senta com apoio, com bom sustento do tronco
Motor fino Busca e pega objetos; leva à boca; começa a transferir de uma mão para outra
Linguagem Balbucio; vocaliza em resposta; localiza o som
Social Ri alto; reconhece cuidadores; pode começar a estranhar desconhecidos

Sinais de alerta - Não rola nem sustenta o tronco com apoio. - Não pega objetos ou usa só uma das mãos. - Ausência de balbucio ou de reação a sons. - Sorriso social pobre, desinteresse por rostos, contato visual inconsistente (sinais precoces de TEA, SBP 2024). - Hipertonia, hipotonia, persistência de reflexos primitivos.

Instrumento: Caderneta da Criança (7ª ed., 2024), faixa de 0 a 6 meses; na próxima consulta, passa-se à faixa de 6 meses a 1 ano e meio.

6.Alimentação e suplementação

  • Aleitamento materno exclusivo até 6 meses (180 dias), sem água, chá, suco ou outros alimentos (Guia Alimentar MS, 2019).
  • Sinais de prontidão para a alimentação complementar: senta com pouco apoio e sustenta bem o tronco, demonstra interesse pela comida, perdeu o reflexo de protrusão da língua.
  • Planejamento para os 6 meses (Guia Alimentar MS, 2019; Nota SBP 2023)
    • Aos 6 meses: 1 refeição principal (almoço) e 1 lanche de fruta, além do leite materno; oferecer água a partir do início da alimentação complementar.
    • Cerca de 30 dias depois: 2ª refeição principal e outro lanche de fruta.
    • Alimentos in natura ou minimamente processados; fruta inteira em vez de suco; pouco sal.
    • Sem açúcar e sem ultraprocessados até 2 anos; sem mel antes de 1 ano.
  • Vitamina D: 400 UI/dia (SBP, nov/2024).
  • Ferro (SBP 2026)
    • Termo sem risco: ciclo I a partir de 6 meses, 10–12,5 mg/dia de ferro elementar por 3 meses contínuos (6 a 9 meses), pausa de 3 meses e ciclo II de 12 a 15 meses. Pode ser prescrito já nesta consulta, com início aos 6 meses.
    • Em uso de leite de vaca integral: ferro desde 4 meses, na mesma dose.
    • Pré-termo e baixo peso: manter 2 a 4 mg/kg/dia conforme o peso de nascimento, até 12 meses.
  • Vitamina A (MS, PNSVA — Nota Técnica Conjunta nº 134/2025): 100.000 UI em dose única entre 6 e 11 meses, na UBS: para todas as crianças do Norte, Nordeste e Centro-Oeste (e dos Vales do Jequitinhonha, do Mucuri e do Ribeira e do Norte de Minas); no Sul e Sudeste, para as inscritas no CadÚnico, nos municípios que aderiram ao programa; e para todas as indígenas atendidas pelo SasiSUS nos DSEI; quem recebe o NutriSUS não necessita da megadose (Caderno dos Programas de Micronutrientes, 2022). Oriente a família a procurar a unidade após os 6 meses.

7.Vacinas desta idade

Vacina SBP 2026/2027 PNI 2026
Meningocócica C / ACWY MenACWY: conferir o esquema primário conforme a marca (o calendário SBP distribui as doses entre 3 e 5 meses; seguir a bula) Meningocócica C (2ª dose)
Meningocócica B Conferir se a 2ª dose da Bexsero® já foi aplicada (2 doses com intervalo ≥ 2 meses + reforço no 2º ano, adotado pela SBP) Não oferecida (só CRIE)
Demais vacinas Conferir e atualizar; próximas doses aos 6 meses Conferir e atualizar; próximas doses aos 6 meses

Antecipe as vacinas dos 6 meses: SBP — DTPa, Hib, VIP, hepatite B, pneumocócica, rotavírus (se RV5), influenza (2 doses na primeira vez) e COVID-19; PNI — pentavalente, VIP, COVID-19 (1ª dose) e influenza. Confira a caderneta e consulte o documento "Vacinas – Atualizações 2026" do site.

8.Triagens e exames

  • Reflexo vermelho e alinhamento ocular: repetir (ao menos 3 vezes por ano nos 3 primeiros anos, SBOP/SBP/CBO). A primeira consulta oftalmológica completa está indicada entre 6 e 12 meses — já pode ser programada.
  • Testículos: registrar a posição; se não estiverem na bolsa aos 6 meses, encaminhar à cirurgia pediátrica (PrevInfad).
  • Audição: vigilância; a criança com falha na triagem deve estar em intervenção até 6 meses (MS).
  • Anemia: sem hemograma de rotina em lactentes saudáveis (SBP 2026); nos grupos de risco, hemograma, ferritina e PCR idealmente entre 9 e 12 meses.
  • Pressão arterial: não é rotina antes dos 3 anos; apenas em condições de risco.

9.Orientações antecipatórias

  • Preparar a alimentação complementar: prato, colher pequena e copo próprios; cadeira alta com cinto; higiene das mãos e dos alimentos; água tratada ou fervida.
  • Engasgo: diferenciar o reflexo de gag (normal) do engasgo; ensinar a manobra de desobstrução; nunca oferecer alimentos com o bebê deitado.
  • Quedas: o bebê rola e se arrasta — não deixar em superfícies altas; proteger escadas.
  • Tomadas e fios: protetores e organização antes que o bebê engatinhe.
  • Andador: não usar (PrevInfad desaconselha).
  • Sono: 12 a 16 horas em 24 horas com cochilos (SBP 2021); rotina curta; sono seguro de barriga para cima.
  • Saúde bucal: com o 1º dente, escovar 2 vezes ao dia com creme dental com ≥ 1.100 ppm de flúor, na quantidade de um grão de arroz cru (SBP 2011); primeira consulta odontológica até 1 ano.
  • Telas: nenhuma exposição antes dos 2 anos, nem durante as refeições (SBP).
  • Estímulo: brincar no chão, oferecer objetos para transferir entre as mãos, conversar e ler em voz alta.

10.Sinais de alerta e encaminhamento

  • Não rola, não sustenta o tronco ou não pega objetos: avaliação do desenvolvimento.
  • Sem balbucio ou sem reação a sons: avaliação audiológica.
  • Sinais sociais de risco para TEA: reavaliar em curto prazo e considerar encaminhamento precoce.
  • Estrabismo fixo, reflexo vermelho alterado ou leucocoria: oftalmologista.
  • Testículo fora da bolsa próximo dos 6 meses: programar encaminhamento.
  • Queda na curva de peso ou de perímetro cefálico.
  • Palidez, irritabilidade e baixo ganho em uso de leite de vaca integral: avaliar anemia.
  • Febre alta, prostração, vômitos persistentes ou desidratação: atendimento imediato.

11.Comparação com as referências internacionais

Item SBP / MS AAP (Bright Futures) NICE / Healthy Child Programme Oxford / Cambridge AEP (PrevInfad) Johns Hopkins Harvard (Boston Children's)
Documento (versão e data) SBP: Consulta de puericultura (periodicidade), Calendário de Vacinação 2026/2027 e documentos temáticos datados nas Fontes; MS: Caderneta da Criança, 7ª ed., 2024, e Calendário técnico nacional de vacinação, 2026 Bright Futures/AAP Periodicity Schedule, fev/2025 UK Government, Delivery of the Healthy Child Programme, 2026 Oxford Health NHS FT e Cambridgeshire & Peterborough HCP 0–19 (páginas de serviço, sem data de versão) PrevInfad/AEPap, Guía de actividades preventivas por grupos de edad, 2014, e recomendações temáticas datadas nas Fontes Johns Hopkins Health Plans, HEDIS Quality Measure Toolkit (NCQA), baseado no Bright Futures — página sem data de versão (© 2026), consultada em 02/10/2026 Boston Children's Hospital, Primary Care — Your Visit (calendário da AAP) — página sem data de versão, consultada em 02/10/2026
Consulta aos 5 meses SBP sim; fora do mínimo do MS Sem visita nesta idade Sem visita nesta idade Segue o HCP; sem contato local Sem bloco específico Bright Futures; meta HEDIS W30: ≥ 6 consultas até 15 meses Sem consulta nesta idade (calendário da AAP: 1ª semana; 1, 2, 4, 6, 9, 12, 15, 18, 24, 30 e 36 m)
Início da alimentação complementar Por volta de 6 meses Sólidos por volta de 6 meses (temas do Bright Futures) Revisão opcional de 6 meses aborda o desmame Segue o HCP Alimentação complementar e glúten aos 6 meses Sem posição específica localizada (remete ao Bright Futures) Sem posição específica localizada
Ferro Ciclo I universal de 6 a 9 meses (10–12,5 mg/dia) AAP 2026: sem Hb universal aos 12 meses; rastreio por risco/dieta (hemograma + ferritina aos 9–12 m em amamentados, 15–18 m em uso de fórmula) Sem profilaxia nem triagem de rotina Segue o HCP Rastreamento só em grupos de risco Sem posição específica localizada (remete ao Bright Futures) Sem posição específica localizada
Criptorquidia Exame seriado Exame físico nas visitas NIPE (testículos) às 6–8 semanas Segue o HCP Encaminhar se persistir aos 6 meses Sem posição específica localizada (remete ao Bright Futures) Sem posição específica localizada
Vitaminas D 400 UI/dia; A só em áreas do programa a partir de 6 meses D 400 UI/dia para amamentados (política da AAP, fora do calendário) Vitaminas A, C e D para todos de 6 meses a 5 anos Segue o HCP D 400 UI/dia se amamentado Sem posição específica localizada (remete ao Bright Futures) Sem posição específica localizada

Leitura. A consulta de 5 meses não tem equivalente internacional: é um contato extra que a SBP usa para preparar a transição dos 6 meses. Há convergência em iniciar a alimentação complementar por volta de 6 meses. A divergência maior é o ferro: o Brasil mantém profilaxia universal (agora em ciclos de dose fixa, unificada com o MS), enquanto Espanha e Reino Unido a restringem aos grupos de risco e a AAP 2026 abandonou a Hb universal aos 12 meses, com rastreio por risco/dieta (hemograma + ferritina). O Reino Unido é o único a oferecer universalmente vitaminas A, C e D dos 6 meses aos 5 anos. Johns Hopkins (Johns Hopkins Health Plans, medidas HEDIS) e Harvard (Boston Children's Primary Care) não têm protocolo próprio de puericultura por idade: ambos seguem o calendário do Bright Futures/AAP e, por isso, convergem com a coluna da AAP; como a AAP, o Boston Children's não tem consulta aos 5 meses. Onde divergem da SBP, a conduta do site segue a SBP (e, na falta dela, o Ministério da Saúde).

Pontos práticos
  1. Deixe a família com um plano escrito para os 6 meses: primeira refeição, lanche de fruta, água, sem açúcar e sem suco.
  2. Prescreva o ferro 10–12,5 mg/dia para iniciar aos 6 meses (ciclo I de 3 meses) e explique a pausa e o ciclo II (SBP 2026).
  3. Não peça hemograma de rotina; reserve a investigação para os grupos de risco, entre 9 e 12 meses.
  4. Registre a posição dos testículos e programe encaminhamento se não estiverem na bolsa aos 6 meses.
  5. Nas áreas do PNSVA, lembre a vitamina A 100.000 UI na UBS após os 6 meses.
  6. Antecipe influenza e COVID-19 dos 6 meses, que entraram na rotina do lactente tanto na SBP quanto no PNI.

12.Próxima consulta

Aos 6 meses, tanto pelo calendário da SBP quanto pela Caderneta da Criança do MS; a partir daí, a SBP passa a consultas bimestrais até 12 meses.

13.Fontes