Patologias do consultório · Crescimento, nutrição e endócrino

Obesidade e risco cardiometabólico

Classificação do IMC em escore-z, rastreio de comorbidades, tratamento comportamental, medicamentos e cirurgia, estigma de peso e sinais de alerta que exigem pronto-socorro ou endocrinologista

Gravidade em semáforo (🟢 leve · 🟡 moderada · 🔴 grave), tratamento em casa e critérios para encaminhar ao pronto-socorro ou internar, com a comparação entre SBP/Ministério da Saúde e as referências internacionais. 📄 Baixar em PDF

Em resumo

A obesidade infantil é doença crônica, multifatorial e recidivante, e deve ser abordada sem culpa e sem estigma (AAP 2023; SBP). O diagnóstico usa o IMC em escore-z nas curvas da OMS (SBP): de 0 a 5 anos, acima de +1 é risco de sobrepeso, acima de +2 sobrepeso e acima de +3 obesidade; de 5 a 19 anos, acima de +1 é sobrepeso, acima de +2 obesidade e acima de +3 obesidade grave. Toda criança com excesso de peso precisa de pressão arterial em toda consulta, perfil lipídico, glicemia/HbA1c e ALT (sobretudo a partir de 10 anos) e pesquisa de ronco e apneia. O tratamento de base é comportamental, familiar e intensivo (AAP: ≥ 26 h em 3–12 meses). Medicamentos (agonistas de GLP-1) são adjuvantes a partir de 12 anos, dentro das indicações da ANVISA, e a cirurgia bariátrica é exceção (AAP ≥ 13 anos; no Brasil, CFM 2025 ≥ 14 anos com IMC > 40 e complicações, e Portaria MS nº 425/2013 de 16 a 18 anos com IMC > +4 z e epífises consolidadas — normas divergentes). A maioria é acompanhada no consultório (🟢/🟡). Poliúria, polidipsia, perda de peso ou vômitos com hiperglicemia, crise hipertensiva, claudicação com dor no quadril ou joelho, cefaleia com alteração visual e apneias com sonolência intensa exigem pronto-socorro (🔴). Baixa estatura ou queda da velocidade de crescimento junto com ganho de peso sugere causa endócrina.

1.O que é e como se apresenta

  • Definição: acúmulo excessivo de gordura corporal com risco à saúde. Na prática, o IMC (peso/estatura²) classificado por idade e sexo.
  • Causas: a grande maioria é obesidade comum (exógena, poligênica), resultado da interação entre genética, ambiente alimentar (ultraprocessados, bebidas açucaradas), sedentarismo, telas, sono curto, estresse e fatores sociais. A SBP (Nota de Alerta nº 62, 2026) lembra que o ambiente alimentar, e não apenas a família, sustenta a epidemia.
  • Causas secundárias (minoria): endócrinas (hipotireoidismo, síndrome de Cushing, deficiência de GH), genéticas/sindrômicas (Prader-Willi, deficiência de receptor de melanocortina 4, leptina, síndromes com dismorfias), hipotalâmicas (pós-tumor, pós-radioterapia) e medicamentosas (corticoide, antipsicóticos atípicos, valproato).
  • Quadro clínico: ganho de peso com cruzamento de linhas de escore-z para cima, estatura geralmente normal ou alta para a família (na obesidade comum), puberdade às vezes antecipada nas meninas. Procurar acantose nigricans (resistência insulínica), estrias, acne e hirsutismo (síndrome dos ovários policísticos), ronco, dor em joelhos e quadril, sofrimento emocional e bullying.
  • Comorbidades cardiometabólicas: hipertensão, dislipidemia (triglicerídeos altos e HDL baixo), pré-diabetes e diabetes tipo 2, doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, apneia obstrutiva do sono, epifisiólise do fêmur proximal, pseudotumor cerebral, depressão e transtornos alimentares.

Classificação do IMC (escore-z, OMS; SBP 2019)

Faixa etária Risco de sobrepeso Sobrepeso Obesidade Obesidade grave
0–5 anos > +1 a +2 > +2 a +3 > +3 —
5–19 anos — > +1 a +2 > +2 a +3 > +3

Atenção à mudança de curva aos 5 anos: os mesmos valores de z passam a significar sobrepeso e obesidade. A AAP usa percentis do CDC (sobrepeso ≥ p85; obesidade ≥ p95; obesidade grave ≥ 120% do p95), e o NICE usa as curvas britânicas (sobrepeso > p91; obesidade > p98).

2.Classificação de gravidade

Gravidade Critérios clínicos Conduta
🟢 Leve Risco de sobrepeso ou sobrepeso; obesidade sem comorbidade; PA normal; exames normais; sem sinais de causa secundária Aconselhamento familiar com entrevista motivacional; metas de hábitos; retorno a cada 1–3 meses; exames conforme idade
🟡 Moderada Obesidade grave (z > +3 ou ≥ 120% do p95); comorbidade estabelecida (PA elevada ou hipertensão estágio 1, dislipidemia, pré-diabetes, ALT elevada, ronco com pausas, SOP); sofrimento psíquico; falha do tratamento em 6 meses; suspeita de causa endócrina ou sindrômica Tratamento comportamental intensivo com equipe; encaminhamento eletivo-prioritário a endocrinologia pediátrica, gastro/hepatologia, pneumologia/sono ou saúde mental conforme o caso; considerar medicamento ≥ 12 anos
🔴 Grave Hiperglicemia sintomática (poliúria, polidipsia, perda de peso), cetose/vômitos ou desidratação; hipertensão estágio 2 com sintomas (cefaleia, alteração visual, dor torácica, déficit neurológico); claudicação ou dor em quadril/joelho (epifisiólise); cefaleia com papiledema ou alteração visual (pseudotumor); apneias com sonolência intensa, cianose ou sinais de hipoventilação; ideação suicida ou transtorno alimentar com instabilidade Encaminhar ao pronto-socorro/hospital (ver "Como encaminhar")

Fatores de risco que elevam a gravidade

  • Início antes dos 5 anos ou obesidade grave precoce; ganho rápido e contínuo.
  • História familiar de diabetes tipo 2, doença cardiovascular precoce, hipercolesterolemia familiar ou obesidade grave.
  • Nascimento pequeno ou grande para a idade gestacional; diabetes gestacional materno.
  • Puberdade (resistência insulínica fisiológica), etnia de maior risco para diabetes tipo 2.
  • Uso de corticoide ou antipsicóticos; deficiência intelectual; TEA.
  • Insegurança alimentar, vulnerabilidade social, bullying e sofrimento emocional.

3.Diagnóstico no consultório

Anamnese dirigida

  • Início e velocidade do ganho, curva de estatura (a obesidade comum costuma ter estatura normal ou alta).
  • Alimentação (bebidas açucaradas, ultraprocessados, refeições em família, telas nas refeições), atividade física, telas e sono (SBP 2024: < 2 anos nenhuma tela; 2–5 anos até 1 h/dia; 6–10 anos 1–2 h/dia; 11–18 anos 2–3 h/dia).
  • Ronco, pausas respiratórias, sonolência diurna; cefaleia; dor em quadril ou joelho; irregularidade menstrual.
  • Humor, autoimagem, bullying, compulsão, vômitos autoinduzidos, uso de laxantes ou de "canetas" sem prescrição.
  • Medicamentos e história familiar.

Exame físico: peso, estatura, IMC em escore-z, circunferência abdominal (relação cintura/estatura), PA com manguito adequado ao braço, acantose, estrias, Tanner, hepatomegalia, tireoide, dismorfias, marcha.

Pressão arterial (SBP 2019, alinhada à AAP 2017): medir em toda consulta na criança com excesso de peso a partir de 3 anos. Abaixo de 13 anos, PA elevada ≥ p90, hipertensão estágio 1 ≥ p95 e estágio 2 ≥ p95 + 12 mmHg; a partir de 13 anos, limiares fixos (elevada 120–129/< 80; estágio 1 130–139/80–89; estágio 2 ≥ 140/90 mmHg).

Exames laboratoriais

Exame Quando Interpretação prática
Perfil lipídico (sem jejum) Obesidade a partir de 2 anos (SBP 2020 seletivo com fator de risco); AAP ≥ 10 anos com sobrepeso/obesidade Desejáveis (SBP): CT < 170, LDL < 110, HDL > 45, não-HDL < 120 mg/dL; CT ≥ 230 sugere hipercolesterolemia familiar
Glicemia de jejum e/ou HbA1c (TOTG se necessário) AAP ≥ 10 anos (ou puberdade) com obesidade, ou sobrepeso com fatores de risco; considerar em 2–9 anos com obesidade Pré-diabetes: glicemia 100–125 mg/dL ou HbA1c 5,7–6,4%; diabetes: glicemia ≥ 126, TOTG 2 h ≥ 200 ou HbA1c ≥ 6,5%
ALT e ultrassom hepático SBP (Manual 2019): toda criança com excesso de peso, ALT junto com ultrassom hepático. Divergência: NASPGHAN e AAP rastreiam só com ALT a partir de 10 anos e não usam ultrassom como rastreio Ultrassom normal não exclui esteatose (sensibilidade baixa, sobretudo na obesidade grave) e não distingue esteatose de esteato-hepatite; ALT persistentemente elevada: repetir e investigar outras hepatopatias
TSH e T4 livre Só se houver baixa velocidade de crescimento, bócio ou sintomas Hipotireoidismo raramente causa obesidade importante
Polissonografia Ronco habitual com pausas ou sonolência diurna Encaminhar a otorrino/sono

Sinais de obesidade "não comum" (SBP, DC de Endocrinologia 2020) — encaminhar à endocrinologia pediátrica:

  • Início antes de 1 ano ou obesidade grave antes dos 5 anos.
  • Baixa estatura ou queda da velocidade de crescimento com ganho de peso (sugere hipotireoidismo, Cushing, deficiência de GH, pseudo-hipoparatireoidismo).
  • Deficiência intelectual, atraso do desenvolvimento, dismorfias ou malformações.
  • Hiperfagia intensa, busca compulsiva por comida.
  • Hipogonadismo, alterações visuais, poliúria (lesão hipotalâmica).

Diagnóstico diferencial que não pode passar: diabetes tipo 1 em criança com sobrepeso (cetose, perda de peso), síndrome de Cushing (estrias violáceas, fácies, parada do crescimento, hipertensão), hipotireoidismo, transtorno alimentar (compulsão, bulimia) e uso de corticoide.

4.Tratamento em casa

Princípios (AAP 2023; SBP 2019; NICE NG246)

  • Linguagem sem estigma: pedir permissão para falar de peso, usar "criança com obesidade" em vez de "criança obesa", focar em saúde e hábitos, não em aparência. Evitar dietas restritivas e comentários sobre o corpo, que aumentam risco de transtorno alimentar. A SBP (NT nº 63, 2026) pede também que se abandone a expressão "canetas emagrecedoras".
  • Entrevista motivacional e metas pactuadas com a família inteira.
  • Tratamento comportamental intensivo: família como unidade; nutrição, atividade física e mudança de comportamento, idealmente ≥ 26 horas de contato em 3–12 meses (AAP, a partir de 6 anos; pode ser oferecido de 2 a 5 anos).
  • Metas práticas: eliminar bebidas açucaradas e sucos; água como bebida; refeições em família, sem telas; reduzir ultraprocessados (Guia Alimentar do MS); ≥ 60 min/dia de atividade física moderada a vigorosa; sono adequado para a idade; telas conforme a SBP.
  • Objetivo realista: em crianças pequenas, manter o peso enquanto cresce já reduz o IMC; nos adolescentes com obesidade grave, perda gradual.
  • Tratar as comorbidades junto (AAP KAS 4): hipertensão, dislipidemia, pré-diabetes e esteatose melhoram com a perda de peso.

Medicamentos e cirurgia

Medicamento Dose Intervalo Duração Observação
Liraglutida Titulação semanal até 3 mg, conforme bula 1x/dia, SC Crônico, com reavaliação a cada 3 meses ANVISA: obesidade ≥ 12 anos e > 60 kg; DM2 ≥ 10 anos; sempre com tratamento comportamental
Semaglutida Titulação mensal até 2,4 mg, conforme bula 1x/semana, SC Crônico, com reavaliação ANVISA: obesidade ≥ 12 anos e > 60 kg; STEP TEENS: −16% do IMC; reganho após suspensão
Tirzepatida Conforme bula 1x/semana, SC — ANVISA pediátrica apenas para DM2 ≥ 10 anos (não para obesidade)
Metformina Conforme bula 1–2x/dia — DM2 ≥ 10 anos; efeito pequeno sobre o peso; uso na resistência insulínica é fora da bula
Orlistate Conforme bula Às refeições — Bula brasileira (Anvisa): uso adulto — abaixo de 18 anos é fora da bula; NICE NG246: abaixo de 12 anos só em situação excepcional, com comorbidade grave; a partir de 12 anos, só com comorbidade física ou psicológica grave e iniciado em serviço pediátrico especializado; efeitos gastrointestinais limitam a adesão
  • Quem prescreve medicamento: adolescente ≥ 12 anos com obesidade, com tratamento comportamental em curso, avaliação de saúde mental e comportamento alimentar, crescimento e puberdade documentados, família capaz de seguimento e expectativas realistas (SBP NT nº 63). Contraindicações: gestação, carcinoma medular de tireoide ou NEM2 pessoal/familiar; pancreatite prévia é relativa.
  • Não prescrever: para adolescente com peso adequado, fins estéticos, perda rápida antes de eventos, produtos manipulados ou sem registro, compra pela internet. Receita em duas vias com retenção.
  • Cirurgia metabólica e bariátrica: AAP recomenda encaminhar para avaliação a partir de 13 anos com obesidade grave (≥ 120% do p95). No Brasil há duas normas que divergem: a Resolução CFM nº 2.429/2025 permite a cirurgia a partir de 14 anos com IMC > 40 e complicações clínicas, com equipe multiprofissional e consentimento dos responsáveis (de 16 a 18 anos, com critérios do adulto); a Portaria GM/MS nº 425/2013 (regra do SUS) admite de 16 a 18 anos com IMC > +4 z, nunca antes da consolidação das epífises. A SBP não tem posição específica localizada. NICE: só em circunstâncias excepcionais, com maturidade fisiológica atingida ou quase.
  • Não usar: "fórmulas" manipuladas, anorexígenos, diuréticos, laxantes, hormônio tireoidiano sem hipotireoidismo, suplementos "termogênicos".

5.Quando encaminhar ao pronto-socorro ou internar

  • Hiperglicemia sintomática: poliúria, polidipsia, noctúria ou enurese nova, perda de peso, glicemia capilar muito alta, cetonúria, vômitos, dor abdominal, taquipneia ou sonolência (cetoacidose ou estado hiperglicêmico hiperosmolar — o DM2 também pode abrir com cetoacidose).
  • Hipertensão estágio 2 com sintomas (cefaleia intensa, alteração visual, convulsão, déficit neurológico, dor torácica, dispneia) ou PA muito acima do estágio 2.
  • Claudicação ou dor em quadril, coxa ou joelho no adolescente obeso: epifisiólise do fêmur proximal até prova em contrário — não deixar apoiar o membro.
  • Cefaleia com papiledema, diplopia ou perda visual (pseudotumor cerebral).
  • Apneia obstrutiva grave: apneias presenciadas com cianose, sonolência excessiva, sinais de insuficiência cardíaca direita ou hipoventilação.
  • Saúde mental: ideação suicida, autolesão, transtorno alimentar com bradicardia, hipotensão, desidratação ou distúrbio hidroeletrolítico.
  • Intoxicação ou efeito adverso grave de medicamento para obesidade (dor abdominal intensa sugestiva de pancreatite ou colecistite, hipoglicemia, desidratação por vômitos).

Como encaminhar

  1. Suspeita de cetoacidose: glicemia capilar e cetonúria se disponíveis; não dar insulina no consultório; se houver desidratação ou má perfusão e demora no transporte, acesso venoso com soro fisiológico 0,9% conforme orientação do serviço de destino (sem hiper-hidratar, pelo risco de edema cerebral); jejum.
  2. Hipertensão sintomática: não baixar a PA de forma abrupta no consultório; contato com o serviço e transporte com monitorização.
  3. Suspeita de epifisiólise: imobilizar, sem apoio do membro, transporte deitado; analgesia.
  4. Rebaixamento de consciência ou convulsão: posição lateral de segurança, oxigênio, acionar o SAMU (192).
  5. Relatório com IMC, PA, glicemia, medicamentos em uso (inclusive GLP-1 e produtos sem prescrição).

6.Orientações de retorno e sinais de alerta para a família

  • "Obesidade não é falta de força de vontade: é uma doença que tratamos juntos, com mudanças da família inteira, sem dietas da moda."
  • "O objetivo nesta fase é mudar hábitos. Pequenas metas, mantidas, valem mais do que perdas rápidas."
  • Retorno a cada 1–3 meses no início; exames conforme a idade e a presença de comorbidades.
  • "Não use remédios para emagrecer sem prescrição e acompanhamento, nem produtos manipulados ou comprados pela internet."
  • Procurar o pronto-socorro se: muita sede e xixi, emagrecimento sem motivo, vômitos com dor de barriga ou respiração rápida; dor de cabeça forte com visão embaçada ou dupla; mancar ou dor no quadril ou joelho; paradas na respiração durante o sono com sonolência intensa de dia; falas de morte ou autolesão.

7.Comparação com as referências

Item SBP / MS AAP NICE AEP Johns Hopkins Harvard Oxford / Cambridge
Versão consultada SBP Manual Obesidade, 3ª ed. (2019); NT nº 63/2026; MS Portaria GM/MS nº 425/2013; CFM nº 2.429/2025 CPG Hampl et al., Pediatrics 2023 NG246 (14/01/2025; atualizada 08/01/2026) Protocolo Obesidad infantil (Moreno Aznar, Lorenzo Garrido), 2023 Childhood and Teenage Obesity: Partnering with Your Pediatrician (revisado por S. Ravendhran; sem data) Boston Children's — Childhood Obesity, Weight Management Medication e Adolescent Bariatric Surgery Program (para famílias, sem data) Sem protocolo local aberto — segue o NICE
Diagnóstico IMC escore-z OMS; 5–19 anos > +1 sobrepeso, > +2 obesidade, > +3 grave Percentis CDC: ≥ p85, ≥ p95, ≥ 120% do p95 Curvas britânicas: > p91 sobrepeso, > p98 obesidade IOTF ou percentis (≥ p85 e ≥ p95) IMC ≥ p95 para idade e sexo chama atenção; olhar além do número IMC por percentil e sua evolução; reconhece que o termo pode estigmatizar Segue o NICE
Rastreio de comorbidades PA, lipídios, glicemia/HbA1c, ALT e ultrassom hepático em todo excesso de peso, sono (Manual 2019) Lipídios, glicose/HbA1c e ALT ≥ 10 anos; PA em toda consulta desde 3 anos; ultrassom hepático não é rastreio Avaliação de comorbidades e causas; encaminhar se complicações PA, lipídios, glicemia e insulina se cintura > p75; não trata do rastreio hepático Sem posição específica localizada Na obesidade: diabetes, PA, lipídios, fígado gorduroso, alterações menstruais e psicológicas Segue o NICE
Tratamento de base Comportamental, familiar, multiprofissional IHBLT ≥ 26 h em 3–12 meses; entrevista motivacional; sem "espera vigilante" Programas multicomponentes Dieta, atividade física, equipe Nutrição e exercício; na criança pequena, manter o peso enquanto cresce; no adolescente, perda gradual (cerca de 1 kg/mês) Programas familiares (OWL: intervenção intensiva de 6 meses com nutrição e medicina comportamental); 60 min/dia de atividade; telas ≤ 2 h/dia Segue o NICE
Medicamentos ≥ 12 anos, indicações ANVISA, decisão individual, "não automática" (NT 63, 2026) Oferecer a ≥ 12 anos; 8–11 anos por consenso < 12 anos só excepcional, com comorbidade grave; ≥ 12 anos orlistate só com comorbidade, iniciado em serviço pediátrico (NG246, 2025) Protocolo 2023 não trata de medicamentos Opção quando aumentam idade, IMC e comorbidades (sem fármacos citados) IMC > p95: semaglutida, liraglutida, tirzepatida, fentermina e topiramato (programa EMPOWER) Segue o NICE
Cirurgia SBP sem posição específica; CFM 2025: ≥ 14 anos, IMC > 40 com complicações; MS (Portaria 425/2013): 16–18 anos, z > +4, epífises consolidadas Encaminhar ≥ 13 anos com obesidade grave Só excepcional, com maturidade fisiológica atingida ou quase Protocolo 2023 não trata de cirurgia IMC > p95 com comorbidade (asma, DM2, alteração cardíaca): encaminhar mais cedo; bons resultados da gastrectomia vertical Só após falha dos esforços médicos e com complicações; pelo menos 6 meses de tratamento supervisionado antes Segue o NICE
Estigma Linguagem sem estigma; abandonar "canetas emagrecedoras" Abordagem não estigmatizante (KAS 9) Pedir permissão, linguagem sensível Cita discriminação e isolamento Dizer aos pais que não há nada de errado com a criança; cautela pelo risco de transtorno alimentar Linguagem neutra; o estigma piora a saúde e afasta do cuidado Segue o NICE

Leitura: todas as referências concordam que a obesidade é doença crônica, que o tratamento comportamental familiar é a base e que medicamentos e cirurgia são adjuvantes para adolescentes. A principal divergência é a intensidade: a AAP 2023 manda oferecer tratamento intensivo desde 6 anos e farmacoterapia a todo adolescente ≥ 12 anos com obesidade, enquanto o NICE é restritivo (abaixo de 12 anos só em situação excepcional; a partir de 12, orlistate só com comorbidade, iniciado em serviço pediátrico especializado — e no Brasil a bula do orlistate é de uso adulto) e a SBP adota decisão individual, sem prescrição automática. Há também diferença de régua diagnóstica (escore-z da OMS no Brasil; percentis do CDC nos EUA; curvas britânicas no Reino Unido; IOTF na Espanha) e de idade mínima para cirurgia (13 anos na AAP; no Brasil, 14 anos no CFM 2025 e 16 anos na Portaria MS nº 425/2013 — normas divergentes, apresentadas lado a lado; a SBP não tem posição específica localizada). O protocolo da AEP (2023) não trata de medicamentos nem de cirurgia. No fígado, a SBP indica ultrassom hepático junto com a ALT em toda criança com excesso de peso, enquanto NASPGHAN e AAP rastreiam só com ALT e não usam ultrassom como exame de rastreio (o protocolo da AEP não trata do rastreio hepático); prevalece a SBP. O Boston Children's se aproxima da AAP 2023 (farmacoterapia acima do p95, incluindo agonistas de GLP-1 e tirzepatida, e cirurgia após pelo menos 6 meses de tratamento supervisionado); o Johns Hopkins, mais cauteloso, prioriza a manutenção do peso na criança pequena e alerta para o risco de transtorno alimentar; ambos insistem na linguagem sem estigma. Posição do site: segue a SBP (Manual 2019; NT nº 63/2026) no diagnóstico, no rastreio e na decisão individual sobre medicamentos; na cirurgia, CFM 2025 e MS 2013 lado a lado (decisão pendente do Dr. Stefani).

Pontos práticos
  1. Classifique pelo escore-z e lembre a mudança de significado aos 5 anos (+2 é sobrepeso antes e obesidade depois).
  2. PA em toda consulta, com manguito adequado; lipídios e glicemia/HbA1c a partir de 10 anos (antes, se obesidade grave ou fator de risco); ALT com ultrassom hepático em toda criança com excesso de peso (SBP), lembrando que ultrassom normal não exclui esteatose.
  3. Obesidade com baixa estatura ou queda da velocidade de crescimento não é obesidade comum: encaminhe à endocrinologia.
  4. Fale de saúde e hábitos, sem culpa; peça permissão, use entrevista motivacional e envolva a família inteira.
  5. Agonista de GLP-1 só a partir de 12 anos, dentro da bula, junto com tratamento comportamental e com avaliação de saúde mental; nunca manipulado ou para fins estéticos.
  6. Sede e poliúria com perda de peso, dor no quadril com claudicação e cefaleia com alteração visual são urgências.

Veja também, nesta Biblioteca: "Canetas emagrecedoras" (agonistas de GLP-1) em crianças e adolescentes e Ambientes alimentares e saúde de crianças e adolescentes (Temas atualizados pela SBP); Detecção precoce do diabetes tipo 1 (Temas atualizados pela SBP); consultas de Puericultura de 5 a 18 anos (IMC em escore-z, PA e lipidograma).

8.Fontes

  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Nutrologia. Obesidade na infância e adolescência — Manual de Orientação, 3ª ed., 2019. PDF
  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Endocrinologia. Quando suspeitar que a obesidade "não é comum" — orientações para o pediatra, 2020 (notícia). sbp.com.br
  • Sociedade Brasileira de Pediatria, Departamento de Endocrinologia. Documentos científicos (lista, incluindo NT 2026 sobre "canetas emagrecedoras" e DC de dislipidemia 2020). sbp.com.br
  • American Academy of Pediatrics. Hampl SE et al. Clinical Practice Guideline for the Evaluation and Treatment of Children and Adolescents With Obesity, 2023. Pediatrics; resumo das KAS PDF
  • American Family Physician. Breaking Down the AAP Guideline on Childhood Obesity, 2023. aafp.org
  • NICE. NG246 — Overweight and obesity management, 14/01/2025, atualizada em 08/01/2026. nice.org.uk; resumo para prática britânica Patient.info
  • AEP. Moreno Aznar LA, Lorenzo Garrido H. Obesidad infantil — Protocolos de Gastroenterología, Hepatología y Nutrición, 2023. PDF
  • Conselho Federal de Medicina. Resolução nº 2.429/2025 — cirurgia bariátrica e metabólica. portal.cfm.org.br
  • Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 425, de 19/03/2013 — assistência de alta complexidade ao indivíduo com obesidade (art. 8º, cirurgia de 16 a 18 anos). bvsms.saude.gov.br
  • Xenical® (orlistate) — bula brasileira (uso adulto). bulas.med.br
  • Johns Hopkins Medicine. Health — Childhood and Teenage Obesity: Partnering with Your Pediatrician (revisado por Sheila Ravendhran; página para famílias, sem data; cópia do Internet Archive de 19/06/2025, consultada em 02/10/2026). hopkinsmedicine.org
  • Boston Children's Hospital (Harvard Medical School). Childhood Obesity (página para famílias, sem data; cópia do Internet Archive de 13/09/2025, consultada em 02/10/2026). childrenshospital.org
  • Boston Children's Hospital (Harvard Medical School). Weight Management Medication for Children (página para famílias, sem data; cópia do Internet Archive de 17/09/2025, consultada em 02/10/2026). childrenshospital.org
  • Boston Children's Hospital (Harvard Medical School). Adolescent Weight Loss (Bariatric) Surgery Program (página para famílias, sem data; consultada em 02/10/2026). childrenshospital.org