Neonatologia · Gastrointestinal e Hepático

Icterícia Neonatal e Hiperbilirrubinemia

Avaliação e manejo da icterícia

1. Importância do tema na Pediatria

A icterícia é o achado clínico mais comum no período neonatal: aparece em cerca de 60% dos RN a termo e 80% dos pré-termo na primeira semana de vida (SBP, 2021). A maioria é fisiológica e benigna, mas a hiperbilirrubinemia indireta grave não tratada pode causar encefalopatia bilirrubínica aguda e kernicterus (sequela permanente). Distinguir a icterícia fisiológica da patológica, aplicar os limiares de tratamento e reconhecer a colestase são temas recorrentes de prova e de prática.

Posição adotada neste documento

Segue o Manual de Orientação nº 10 da SBP (Departamento Científico de Neonatologia, 29/09/2021), com limiares derivados da AAP 2004. A diretriz da AAP 2022, que tem limiares mais altos e o conceito de escalonamento de cuidados, aparece como divergência (seção 7). Mesma posição do tema Hiperbilirrubinemia neonatal (Temas atualizados em Neonatologia).

2. Avaliação inicial

3. Fisiopatologia aplicada

A bilirrubina resulta da degradação do heme (heme → biliverdina → bilirrubina indireta, não conjugada). A indireta é lipossolúvel, circula ligada à albumina e é conjugada no fígado pela UDP-glicuronil-transferase, tornando-se direta (hidrossolúvel), excretada na bile. No RN há maior produção (maior massa eritrocitária e meia-vida menor das hemácias), conjugação hepática imatura e circulação êntero-hepática aumentada. A fração livre da bilirrubina indireta atravessa a barreira hematoencefálica e é neurotóxica (núcleos da base). Por isso, acidose, sepse, hipoalbuminemia e hemólise, que aumentam a fração livre ou a permeabilidade da barreira, baixam o limiar de tratamento.

Implicação no manejo: a fototerapia converte a bilirrubina indireta em fotoisômeros hidrossolúveis, excretados sem conjugação. A exsanguineotransfusão remove bilirrubina e anticorpos.

4. Diagnóstico

Fisiológica × patológica

CaracterísticaInterpretação
Início nas primeiras 24 h de vidaSempre patológica: investigar hemólise
Pico no 3º–5º dia (termo)Compatível com icterícia fisiológica
Subida rápida (na doença hemolítica, ≥ 0,5–1,0 mg/dL/h nas primeiras 36 h)Patológica: indica exsanguineotransfusão se persistir apesar da fototerapia (SBP 2021)
Bilirrubina direta > 1 mg/dL, de modo independente da totalColestase: sempre patológica (SBP 2021; SBP DC nº 169/2024)
Icterícia por mais de 14 diasProlongada: dosar frações (colestase) e investigar leite materno, hipotireoidismo e hemólise

Exames para a etiologia (SBP 2021)

ExameUtilidade
Bilirrubina total e fraçõesMagnitude; separa indireta × direta. Usar a bilirrubina total nas tabelas, sem descontar a direta
Tipagem ABO/Rh da mãe e do RN; Coombs direto (cordão ou RN)Doença hemolítica imune; Coombs indireto se mãe Rh negativo; eluato se mãe O; anticorpos irregulares se multigesta ou transfundida
Hemoglobina, hematócrito, reticulócitos e morfologiaHemólise, esferocitose
Dosagem quantitativa de G6PDDeficiência de G6PD (pode vir falsamente normal com reticulocitose)
TSH e T4 (teste do pezinho)Hipotireoidismo congênito na icterícia prolongada
Ultrassonografia transfontanelar (pré-termo)Hemorragia peri-intraventricular como fonte de bilirrubina

5. Conduta e tratamento

O tratamento cruza a bilirrubina total com a idade pós-natal em horas, a idade gestacional e os fatores de neurotoxicidade. A fototerapia é a terapia de escolha; a exsanguineotransfusão (EST) e a imunoglobulina endovenosa são reservadas a casos selecionados (SBP 2021).

RN ≥ 35 semanas: bilirrubina total (mg/dL) para fototerapia e EST (SBP 2021, Tabela 9)

Idade pós-natalFototerapia 35 0/7–37 6/7 semFototerapia ≥ 38 0/7 semEST 35 0/7–37 6/7 semEST ≥ 38 0/7 sem
24 h8101518
36 h9,511,51620
48 h11131721
72 h13151822
96 h14162023
5 a 7 dias15172124

RN < 35 semanas: bilirrubina total (mg/dL) por idade gestacional corrigida (SBP 2021, Tabela 10, base Maisels 2012)

IG corrigidaFototerapiaEST
< 28 semanas5–611–14
28 0/7–29 6/76–812–14
30 0/7–31 6/78–1013–16
32 0/7–33 6/710–1215–18
34 0/7–34 6/710–12*17–19

* Valor da Tabela 10 da SBP. A Johns Hopkins (2026), que também cita Maisels 2012, traz 12–14 mg/dL para 34 semanas. É provável erro de transcrição no documento da SBP, ainda não confirmado no artigo original; até lá, usar 10–12 mg/dL é a opção mais conservadora.

Usar os valores inferiores na doença hemolítica, na deficiência de G6PD, com albumina < 2,5 g/dL, com subida rápida da BT ou com instabilidade clínica (pH < 7,15, ventilação mecânica, sepse ou meningite, apneia ou bradicardia com necessidade de ventilação ou de drogas vasoativas nas 24 h anteriores). No RN ≤ 1.000 g ou ≤ 26 semanas, a SBP indica fototerapia profilática nas primeiras 12 horas com irradiância padrão (8–10 µW/cm²/nm) e desaconselha a alta intensidade (SBP 2021).

Suspensão da fototerapia (SBP 2021)

Doses

MedicamentoDose e indicaçãoFonte
Imunoglobulina humana endovenosa (padrão)0,5–1,0 g/kg EV em 2 horas, repetir após 12 horas se necessário. Só na doença hemolítica imune com BT subindo apesar da fototerapia de alta intensidade ou a 2–3 mg/dL do nível de EST. Uso individualizado, porque a evidência é de baixa qualidadeSBP 2021 (AAP 2004). Divergências: NICE CG98, 500 mg/kg em 4 h se a subida for > 8,5 µmol/L/h (≈ 0,5 mg/dL/h); Johns Hopkins 2026, 1 g/kg
Aleitamento e medidas gerais

Manter o aleitamento materno. No RN em fototerapia com bilirrubina elevada, evitar retirá-lo do aparelho; quando necessário, oferecer leite materno ordenhado e/ou fórmula para otimizar o tratamento (SBP 2021). Não usar luz solar como tratamento (NICE CG98, 1.4.7). Tratar a causa de base (hemólise, sepse, hipotireoidismo).

Fluxograma (resumo)

  1. Icterícia → bilirrubina total e frações + idade em horas, IG e fatores de risco.
  2. Comparar com a Tabela 9 (≥ 35 sem) ou 10 (< 35 sem), com o ajuste para fatores de risco → fototerapia se acima do limiar.
  3. BT subindo apesar de fototerapia de alta intensidade, nível de EST ou sinais de encefalopatia → EST, com transferência para UTI neonatal. Na hemólise imune, IGIV como adjuvante.
  4. Icterícia > 14 dias, colúria ou acolia → bilirrubina direta (colestase).

6. Gravidade e encaminhamento

ClassificaçãoSituaçãoConduta
🔴 GraveSinais de encefalopatia bilirrubínica (letargia, hipotonia ou hipertonia, opistótono, choro agudo, febre); BT no nível de EST ou ≥ 5 mg/dL acima dele; BT subindo apesar de fototerapia de alta intensidadeFototerapia de alta intensidade imediata e transferência imediata para UTI neonatal com condições de EST
🟡 ModeradaBT na faixa de fototerapia; icterícia nas primeiras 24 h; Coombs direto positivo ou suspeita de hemólise; icterícia > 14 dias, colúria ou acoliaInternação para fototerapia e investigação da causa. Na suspeita de colestase, bilirrubina direta e encaminhar com urgência ao gastroenterologista ou hepatologista pediátrico
🟢 LeveIcterícia após 24 h, BT abaixo do limiar para a idade, RN em bom estado, mamando bemAlta com orientação à família e retorno ambulatorial em 48–72 h (SBP 2021)

7. Comparação das referências

TemaSBP (MO nº 10, 29/09/2021)MS (Atenção à Saúde do RN, v. 2, 2014)AAP (CPG, 2022)NICE (CG98, atual. 31/10/2023)AEP/SENeo (2017)Johns Hopkins (All Children's, 16/07/2026)HarvardOxford / Cambridge
Limiares ≥ 35 semTabela por horas e IG (AAP 2004)Mesma base (AAP 2004), citada pela SBPMais altos, semana a semana de IG; escalonamento a ≤ 2 mg/dL do limiar de ESTGráficos próprios por IG (µmol/L)AAP 2004AAP 2022Sem protocolo público localizadoSeguem o NICE CG98 (rede Thames Valley e Wessex, 03/2025; rede East of England, 2025)
Triagem antes da altaBT sérica ou transcutânea em todo RN ≥ 35 semFluxograma de risco (BT se icterícia e fatores de risco), reproduzido pela SBPEm todos, com 24–48 h ou antes da altaNão medir em RN sem icterícia visívelControversa; avaliação de riscoComo a AAP—Como o NICE
IGIV na hemólise imune0,5–1 g/kg em 2 h, individualizada—0,5–1 g/kg ao atingir o escalonamento500 mg/kg em 4 h se subida > 8,5 µmol/L/h0,5–1 g/kg1 g/kg em 2 h—Como o NICE
< 35 semMaisels 2012—Fora do escopoGráficos por IG—Maisels 2012—Como o NICE
Icterícia prolongada> 14 dias = alerta; BD > 1 mg/dL = colestaseFração direta se suspeita de colestaseBD no amamentado ictérico com 3–4 semanas (fórmula: 2 semanas)> 14 dias (≥ 37 sem) ou > 21 dias (< 37 sem); conjugada > 25 µmol/L → especialista> 15 dias (3 semanas se aleitamento materno)——Como o NICE

Leitura: todas as referências tratam pela bilirrubina total cruzada com horas de vida, idade gestacional e fatores de neurotoxicidade. Também convergem na fototerapia como 1ª linha, na EST imediata com encefalopatia e nos limiares de Maisels para o pré-termo (SBP e Johns Hopkins). A divergência central é de geração de diretriz. SBP, MS e SENeo usam os limiares da AAP 2004; a AAP 2022, seguida pela Johns Hopkins, elevou os limiares e criou o escalonamento de cuidados. O modelo britânico (NICE, adotado pelas redes de Oxford e Cambridge) usa gráficos próprios e não mede a bilirrubina em RN sem icterícia visível. A dose de IGIV também varia: 0,5–1 g/kg (SBP, AAP, SENeo), 500 mg/kg (NICE) ou 1 g/kg (Johns Hopkins). Posição adotada: tabelas e IGIV da SBP 2021, com triagem universal antes da alta e retorno em 48–72 h. Quem adotar a AAP 2022 (por exemplo, com a ferramenta BiliTool) estará usando limiares mais altos e deve registrá-lo em protocolo escrito da unidade.

8. Complicações

9. Erros comuns

10. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

11. Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Neonatologia. Hiperbilirrubinemia indireta no período neonatal. Manual de Orientação nº 10, 29 set. 2021. PDF
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 2, 2. ed. atual. Brasília, 2014. Cap. 13, Icterícia. BVS MS
  3. KEMPER, A. R. et al. Clinical Practice Guideline Revision: Management of Hyperbilirubinemia in the Newborn Infant 35 or More Weeks of Gestation. Pediatrics, v. 150, n. 3, e2022058859, 2022. doi
  4. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Jaundice in newborn babies under 28 days (CG98). 2010, atualizada em 31 out. 2023. nice.org.uk
  5. SÁNCHEZ-REDONDO, M. D. et al.; Comisión de Estándares de la SENeo. Recomendaciones para la prevención, la detección y el manejo de la hiperbilirrubinemia en los recién nacidos con 35 o más semanas de edad gestacional. An Pediatr, 2017. Anales de Pediatría
  6. JOHNS HOPKINS ALL CHILDREN'S HOSPITAL. Neonatal Hyperbilirubinemia Clinical Pathway. Aprovado em 12/06/2023; atualização de 16/07/2026. PDF
  7. MAISELS, M. J. et al. An approach to the management of hyperbilirubinemia in the preterm infant less than 35 weeks of gestation. J Perinatol, v. 32, p. 660-664, 2012. doi
  8. THAMES VALLEY AND WESSEX NEONATAL ODN (inclui Oxford University Hospitals). Phototherapy for Jaundice Guideline, v. 5, mar. 2025. PDF · EAST OF ENGLAND NEONATAL ODN (Cambridge). Exchange Transfusion Guideline, NEO-ODN-2025-19, 2025. PDF
  9. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Hepatologia. Colestase em lactentes: um tema do pediatra. Documento Científico nº 169, 16 set. 2024. PDF

Revisão: outubro de 2026.

12. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1

RN a termo (39 semanas), 18 horas de vida, com icterícia até o tronco. Mãe O positivo, RN A positivo; bilirrubina total 13 mg/dL (indireta), Coombs direto positivo.

Questão 1. Por que essa icterícia deve ser considerada patológica?
(A) Pelo pico no 3º dia (B) Pelo início nas primeiras 24 horas de vida (C) Por ser de bilirrubina direta (D) Por ser fisiológica do prematuro (E) Por durar mais de 2 semanas

Questão 2. Mecanismo mais provável?
(A) Colestase neonatal (B) Doença hemolítica por incompatibilidade ABO (C) Atresia de vias biliares (D) Hipotireoidismo congênito (E) Icterícia do leite materno

Questão 3. Conduta de 1ª linha?
(A) Exsanguineotransfusão imediata (B) Fototerapia, com reavaliação seriada da bilirrubina (C) Suspender o aleitamento por 7 dias (D) Apenas observação domiciliar (E) Fenobarbital oral

Caso 2

RN a termo em fototerapia intensiva por doença hemolítica. A bilirrubina continua subindo e se aproxima da linha de exsanguineotransfusão, e o RN começa a apresentar letargia e hipotonia.

Questão 4. Que terapia adjuvante pode ser usada na hemólise imune?
(A) Albumina oral (B) Imunoglobulina intravenosa (IGIV) 0,5–1 g/kg (C) Antibiótico de amplo espectro (D) Corticoide em pulso (E) Vitamina K em dose alta

Questão 5. O surgimento de letargia, hipotonia e choro agudo indica:
(A) Icterícia fisiológica (B) Encefalopatia bilirrubínica aguda (C) Hipoglicemia isolada (D) Sepse urinária (E) Refluxo gastroesofágico

Questão 6. Qual conduta está indicada nesse momento?
(A) Reduzir a fototerapia (B) Exsanguineotransfusão (C) Alta com retorno em 48 h (D) Apenas aumentar a oferta hídrica oral (E) Suspender qualquer tratamento

Gabarito comentado

1 — B. A icterícia que começa antes de 24 horas é sempre patológica e exige investigação de hemólise.

2 — B. Mãe O e RN A com Coombs direto positivo configuram doença hemolítica ABO.

3 — B. Com ≥ 38 semanas e 24 h de vida, o limiar de fototerapia é 10 mg/dL, e 8 mg/dL com doença hemolítica (SBP 2021, Tabela 9). Indicam-se fototerapia de alta intensidade e controle seriado.

4 — B. Na doença hemolítica imune com bilirrubina subindo apesar da fototerapia, ou a 2–3 mg/dL do nível de EST, a IGIV 0,5–1 g/kg em 2 h é adjuvante de uso individualizado (SBP 2021).

5 — B. Letargia, hipotonia e choro agudo caracterizam encefalopatia bilirrubínica aguda.

6 — B. Sinais de encefalopatia indicam exsanguineotransfusão imediata (SBP 2021), com transferência para UTI neonatal se o serviço não a realizar.