Neonatologia · Respiratório

Hipertensão Pulmonar Persistente (HPPN)

HPPN no recém-nascido

1. Importância do tema

A HPPN é causa de hipoxemia grave no RN a termo e pós-termo (incidência média de 1–2 por 1.000 nascidos vivos — MS 2014), com alta mortalidade se não reconhecida e tratada. Associa-se à aspiração de mecônio, asfixia, sepse/pneumonia, doença da membrana hialina e hérnia diafragmática. É tema de prova pela apresentação típica: hipoxemia desproporcional ao desconforto, que não responde ao oxigênio.

2. Avaliação inicial

Hipoxemia grave e lábil, com necessidade alta de O₂ e diferença entre a SpO2 pré-ductal (membro superior direito) e pós-ductal (membros inferiores). A oxigenação piora muito com qualquer manipulação.

3. Fisiopatologia aplicada

Ao nascer, a resistência vascular pulmonar deve cair; na HPPN isso não ocorre e o sangue desvia da direita para a esquerda pelo forame oval e pelo canal arterial. Mecanismos: vasoconstrição com leito normal (asfixia, mecônio, sepse), remodelamento vascular (forma idiopática) e hipoplasia do leito (hérnia diafragmática, oligoâmnio) — este último grupo responde pouco aos vasodilatadores (MS 2014). Implicações: otimizar a oxigenação e o volume pulmonar com ventilação gentil, manter a pressão arterial sistêmica e usar vasodilatador pulmonar.

4. Diagnóstico

Critérios (MS 2014): em ventilação mecânica com FiO₂ 1,0, PaO₂ pós-ductal < 100 mmHg ou SpO2 pós-ductal < 90%; labilidade (mais de 2 quedas de SpO2 abaixo de 85% em 12 h com necessidade de aumentar o suporte); gradiente pré/pós-ductal de PaO₂ > 20 mmHg ou de SpO2 > 5%; ou evidência ecocardiográfica de hipertensão pulmonar.

ExameAchado / utilidade
EcocardiogramaExame de eleição: shunt D→E pelo canal e/ou forame oval, pressão pulmonar, função ventricular; afasta cardiopatia estrutural (sobretudo as dependentes de shunt D→E pelo canal)
SpO2 pré e pós-ductalDiferença > 5% (MS 2014)
Índice de oxigenação (IO = MAP × FiO₂ × 100 / PaO₂ pós-ductal)Gravidade; IO > 25 indica iNO; IO > 40, avaliar ECMO
Radiografia de tóraxInespecífica; "pulmão preto" na forma idiopática ou achados da doença de base
Gasometria, lactatoHipoxemia grave ± acidose

5. Conduta e tratamento

  1. Oxigenação e ventilação: evitar hipóxia, hipercapnia e acidose; ventilação gentil, recrutando o pulmão sem hiperinsuflar; SpO2 pré-ductal entre 91% e 95%, evitando quedas abaixo de 85% e valores acima de 97%; PaCO₂ 45–60 mmHg e pH > 7,25 nas primeiras horas (EPPVDN 2019). Não usar hiperventilação nem alcalinização forçada (AHA/ATS 2015).
  2. Surfactante se houver doença parenquimatosa (aspiração de mecônio, DMH, pneumonia), para otimizar o volume pulmonar (AHA/ATS 2015; EPPVDN 2019).
  3. Pressão arterial sistêmica mantida com volume (se hipovolemia) e inotrópicos/vasopressores; sedação e analgesia; manuseio mínimo.
  4. Óxido nítrico inalado (iNO) no RN > 34 semanas em ventilação mecânica com IO > 25 e evidência ecocardiográfica ou clínica de hipertensão pulmonar (MS 2014); contraindicado nas cardiopatias dependentes de shunt D→E pelo canal. Antes de iniciar, corrigir PA média < 30 mmHg, sangramento ativo ou plaquetas < 50.000.
  5. Refratário ao iNO (ou iNO indisponível): sildenafil; milrinona se houver disfunção ventricular; ECMO em centro de referência (IO > 40 apesar de tratamento otimizado — AHA/ATS 2015), não indicada abaixo de 34 semanas e/ou 2.000 g (EPPVDN 2019).
Meta de oxigênio

Na HPPN a meta é SpO2 pré-ductal 91–95% (EPPVDN 2019; coerente com a meta neonatal da SBP). Hiperóxia (SpO2 > 97%) não traz benefício e gera estresse oxidativo. Não aplicar ao RN a meta pediátrica de 94–98%.

6. Doses

MedicaçãoDoseObservaçõesFonte
Óxido nítrico inaladoIniciar com 5 ppm e aumentar 5 ppm por vez até 20 ppm, conforme a resposta (queda do IO de 15–30% em 30–60 min). Desmame: manter a dose eficaz por ~24 h, reduzir 5 ppm a cada 6 h até 5 ppm, manter 24 h e reduzir 1 ppm a cada 6 hMonitorar NO₂ (< 1 ppm) e metemoglobina (suspender ou reduzir se > 5%). Dose inicial de 20 ppm na bula e na AAP; doses > 20 ppm não melhoram a oxigenação (AHA/ATS 2015)MS 2014 (vol. 3, 23.6.1)
Sildenafil VO1–4 mg/kg/dia, de 6/6 h (0,25–1 mg/kg/dose)Adjuvante no refratário ao iNO ou sem iNO; uso fora da bula no RNMS 2014
Sildenafil IVAtaque 0,4 mg/kg em 3 h, seguido de 1,6 mg/kg/dia em infusão contínuaAtaque mais rápido causa hipotensão; uso fora da bulaAHA/ATS 2015
Milrinona0,2–0,75 mcg/kg/min IV contínua, sem dose de ataqueSe disfunção ventricular; risco de hipotensão; uso fora da bulaMS 2014; AHA/ATS 2015 (IIa)
Dobutamina / dopamina / adrenalinaDobutamina 5–15 mcg/kg/min; associar dopamina 5–10 mcg/kg/min; se não estabilizar, adrenalina 0,1–0,3 mcg/kg/minManter a PA sistêmica e reduzir o shunt D→E; noradrenalina e vasopressina conforme protocolo da unidadeMS 2014 (vol. 3, 23.3)

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal; seguir o protocolo da unidade.

7. Fluxograma terapêutico (resumo)

  1. Hipoxemia grave e lábil + gradiente pré/pós-ductal → ecocardiograma (confirma e afasta cardiopatia).
  2. Otimizar ventilação e volume pulmonar (surfactante se doença parenquimatosa) + manter a PA + sedação.
  3. IO > 25 → iNO (5 → até 20 ppm).
  4. Refratário → sildenafil / milrinona → ECMO em centro de referência.

8. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEP / SENeoJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaSem documento sobre HPPN (lista do DC de Neonatologia, consultada em out/2026)Atenção à Saúde do RN, 2ª ed., vol. 3, 2014COFN: Use of inhaled nitric oxide, Pediatrics 2000;106:344; iNO in preterm infants, 2014;133:164. AHA/ATS 2015 (Circulation 2015;132:2037)Sem diretriz de HPPN localizadaSENeo, Recomendaciones (III) surfactante e NO, An Pediatr 2015Sem diretriz pública localizadaSem diretriz pública localizadaSeguem NICE/BAPM; EPPVDN 2019 (J Heart Lung Transplant)
Meta de SpO2—Geral da ventilação: 86–93%Sem número (AHA/ATS)————EPPVDN: pré-ductal 91–95%
Indicação do iNO—> 34 sem, IO > 25 + evidência de HPTermo e pré-termo tardio; IO > 25 (AHA/ATS, classe I)—Módulo de NO (2015), sem detalhe localizado——EPPVDN: IO > 25 ou PaO₂ < 100 com FiO₂ 1,0
Dose do iNO—5 → até 20 ppm (admite 40 sem resposta)20 ppm; > 20 sem benefício—————
Adjuvantes—Sildenafil 1–4 mg/kg/dia; milrinona 0,2–0,75Sildenafil (IIa); milrinona se disfunção de VE (IIa)————EPPVDN: sildenafil VO (IIa), IV (IIb); milrinona (IIb)
ECMO—Não abordadaRefratário ao iNO (classe I); IO > 40————EPPVDN: não < 34 sem/< 2.000 g

Leitura: MS (2014), AAP (2000; 2014), AHA/ATS (2015) e EPPVDN (2019) concordam no essencial: ecocardiograma para confirmar e afastar cardiopatia, ventilação gentil com recrutamento pulmonar, surfactante na doença parenquimatosa, manutenção da PA sistêmica, iNO como vasodilatador de 1ª linha no RN > 34 semanas com IO > 25 e ECMO no refratário. Divergem na dose inicial do iNO (MS: 5 ppm com aumento até 20; AAP, AHA/ATS e bula: 20 ppm, sem benefício acima disso — o MS admite até 40 ppm), na meta de SpO2 (MS: 86–93%, meta geral de 2014; EPPVDN: 91–95%) e no peso dos adjuvantes. A SBP não tem documento sobre HPPN; NICE, Johns Hopkins e Harvard não têm diretriz localizada; Oxford e Cambridge seguem NICE/BAPM. Posição do site: a do Ministério da Saúde (regra SBP → MS) para indicação, titulação e desmame do iNO e para as doses de sildenafil VO e milrinona; teto de 20 ppm e meta de SpO2 pré-ductal de 91–95% pela melhor referência específica (AHA/ATS 2015; EPPVDN 2019).

9. Gravidade e encaminhamento

10. Complicações

Hipoxemia refratária, barotrauma e escape de ar, hemorragia, lesão neurológica, perda auditiva neurossensorial e óbito; rebote de hipertensão pulmonar na retirada abrupta do iNO.

11. Erros comuns

12. Pontos-chave (ENAMED)

13. Referências

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. 2. ed. atual. Brasília, 2014. v. 3 (21.4.5 HPPN; 23.3 suporte hemodinâmico; 23.6 óxido nítrico e outros vasodilatadores). bvsms.saude.gov.br.
  2. AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS. Committee on Fetus and Newborn. Use of inhaled nitric oxide. Pediatrics, v. 106, n. 2, p. 344–345, 2000. PubMed.
  3. KUMAR, P.; COMMITTEE ON FETUS AND NEWBORN (AAP). Use of inhaled nitric oxide in preterm infants. Pediatrics, v. 133, n. 1, p. 164–170, 2014. PubMed.
  4. ABMAN, S. H. et al. Pediatric pulmonary hypertension: guidelines from the American Heart Association and American Thoracic Society. Circulation, v. 132, n. 21, p. 2037–2099, 2015. doi:10.1161/CIR.0000000000000329.
  5. HANSMANN, G. et al. 2019 updated consensus statement on the diagnosis and treatment of pediatric pulmonary hypertension: the European Pediatric Pulmonary Vascular Disease Network (EPPVDN). J Heart Lung Transplant, v. 38, n. 9, p. 879–901, 2019. doi:10.1016/j.healun.2019.06.022.
  6. CASTILLO SALINAS, F. et al. (SENeo). Recomendaciones para la asistencia respiratoria en el recién nacido (III). Surfactante y óxido nítrico. An Pediatr (Barc), v. 83, n. 5, p. 354.e1–6, 2015. PubMed.

Revisão: outubro de 2026.

14. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1

RN a termo, pós-asfixia, com hipoxemia grave e instável no 1º dia e diferença de SpO2 entre o membro superior direito e o membro inferior > 10%.

Questão 1. Exame essencial para confirmar a HPPN e afastar cardiopatia?
(A) Radiografia (B) Ecocardiograma (C) ECG isolado (D) Tomografia (E) Gasometria venosa

Questão 2. Vasodilatador pulmonar de 1ª linha no RN ventilado com IO > 25?
(A) Óxido nítrico inalado, titulado até 20 ppm (B) Sildenafil IV 5 mg/kg em bólus (C) Milrinona oral única (D) Adrenalina inalatória (E) Furosemida 2 mg/kg

Questão 3. Princípio do suporte da HPPN?
(A) Hipocapnia agressiva e alcalose (B) Evitar hipóxia/hipercapnia/acidose, ventilação gentil e manter a PA (C) Hipotensão permissiva (D) Restringir O₂ mesmo na hipoxemia (E) Maximizar a manipulação

Caso 2

O mesmo RN mantém hipoxemia grave apesar do iNO e da ventilação otimizada.

Questão 4. Adjuvante e dose nessa fase?
(A) Sildenafil VO 1–4 mg/kg/dia de 6/6 h (B) Furosemida em infusão (C) Hidroclorotiazida em dose alta (D) Dexametasona 1 mg/kg (E) Salbutamol inalatório

Questão 5. Por que manter a PA sistêmica?
(A) Aumentar a diurese (B) Reduzir o shunt direita-esquerda e melhorar a oxigenação (C) Diminuir a FC (D) Acelerar o fechamento do canal (E) Elevar a pressão pulmonar

Questão 6. Opção de resgate na refratariedade extrema?
(A) Exsanguineotransfusão (B) ECMO (C) Corticoide em pulso (D) Hemodiálise (E) Fototerapia intensiva

Gabarito comentado

1 — B. O ecocardiograma confirma a HPPN (shunt D→E) e afasta cardiopatia congênita. 2 — A. O iNO é o vasodilatador de 1ª linha no RN > 34 semanas ventilado com IO > 25; o MS inicia com 5 ppm e titula até 20 ppm (AAP/bula: 20 ppm). 3 — B. Evitar hipóxia/hipercapnia/acidose, ventilação gentil e manter a PA sistêmica. 4 — A. Sildenafil VO 1–4 mg/kg/dia de 6/6 h (MS 2014) é adjuvante; a milrinona é outra opção, sobretudo com disfunção ventricular. 5 — B. Manter a PA sistêmica acima da pulmonar reduz o shunt e melhora a oxigenação. 6 — B. Na refratariedade ao iNO e à ventilação, a ECMO é a opção de resgate.

Revisão: outubro de 2026.