Neonatologia · Nefrologia e Urológico

Hipertensão Arterial no RN

Hipertensão neonatal

Revisão: outubro de 2026.

1. Importância do tema na Pediatria

A hipertensão neonatal ocorre em cerca de 1–2% dos RN internados em UTI (prematuros com cateter umbilical, displasia broncopulmonar, nefropatias) e é rara no RN saudável, em quem a medida rotineira da PA não é recomendada (EoE/Cambridge, 2020). A causa é, na maioria, RENAL/renovascular. Reconhecer, investigar a causa e tratar de forma escalonada evita lesão de órgão-alvo.

2. Avaliação inicial

Aferir a PA com manguito adequado (largura da bolsa ≈ 40% da circunferência do braço; no RN, manguito de 4 cm de largura — SBP, MO nº 2/2019), no membro superior direito, com o RN quieto ou dormindo, sem mamar, repetindo a medida (as primeiras leituras são mais altas). A medida intra-arterial é o padrão-ouro; leituras oscilométricas elevadas devem ser confirmadas, e na suspeita de coarctação mede-se a PA nos 4 membros (EoE/Cambridge, 2020). Definir hipertensão como PA sistólica e/ou diastólica ≥ percentil 95 para a idade pós-concepcional, confirmada em 3 ocasiões; ≥ percentil 99 é grave. Procurar a causa (história de cateter umbilical, exame, função renal, ecocardiograma para coarctação).

3. Fisiopatologia aplicada

A maioria das hipertensões neonatais é secundária. A causa iatrogênica mais clássica é a TROMBOSE da artéria renal/aorta associada ao cateter de artéria umbilical, que ativa o sistema renina-angiotensina. Outras (SBP, MO nº 2/2019; EoE/Cambridge, 2020): doença renal parenquimatosa ou malformação renal, estenose de artéria renal, trombose de veia renal, displasia broncopulmonar (hipóxia crônica), coarctação da aorta (diferença de PA entre membros superiores e inferiores), causas endócrinas (hiperplasia adrenal congênita, hipertireoidismo), sobrecarga hídrica, medicamentos (dexametasona, cafeína, agentes adrenérgicos, nutrição parenteral com sobrecarga de sal ou hipercalcemia) e causas neurológicas (dor, convulsões, hipertensão intracraniana, abstinência). Implicação: tratar a causa e a PA, evitando quedas abruptas.

4. Diagnóstico

Critérios: PA ≥ p95 para a idade pós-concepcional em 3 medidas (grave se ≥ p99). Avaliar lesão de órgão-alvo (hipertrofia de VE ao ecocardiograma).

Valores de referência da PA sistólica após 2 semanas de vida (SBP, MO nº 2/2019, Tabela 4, adaptada de Dionne et al.)

Idade pós-concepcionalPAS p50PAS p95PAS p99
26 semanas557277
30 semanas658085
34 semanas708590
38 semanas779297
40 semanas8095100
44 semanas88105110

Valores em mmHg; a tabela completa (26 a 44 semanas, com PAD e PAM) está no Manual da SBP.

Exames essenciais

ExameAchado / utilidade
Função renal e eletrólitos; urina tipo 1Nefropatia; HAC (Na/K)
Ultrassom renal com DopplerTrombose, malformação, estenose de artéria renal (sobretudo após cateter umbilical)
EcocardiogramaCoarctação; hipertrofia de VE (órgão-alvo)
PA nos 4 membrosGradiente sugere coarctação
Conforme o casoFunção tireoidiana, cálcio, renina e aldosterona, 17-OH-progesterona (EoE/Cambridge, 2020)

5. Conduta e tratamento

1. Tratar a causa (retirar/ajustar cateter, tratar a nefropatia, corrigir dor, sobrecarga hídrica e medicamentos que elevam a PA) e remover fatores contribuintes.

2. Quando tratar com medicamento: PA persistentemente > p99 (no RN a termo, em geral PAS > 110 mmHg) ou ≥ p95 com sintomas ou lesão de órgão-alvo (EoE/Cambridge, 2020; Altemose e Dionne, 2022), sempre com nefrologista/cardiologista pediátrico.

3. Hipertensão grave/sintomática: infusão IV titulável (nicardipina, labetalol, esmolol) ou hidralazina em bólus, com redução gradual — na criança, no máximo 25% nas primeiras 8 h e o restante de forma gradual (SBP, MO nº 2/2019); no RN, as referências neonatais propõem reduzir um terço do excesso nas primeiras 6–12 h e completar em 48–72 h (Altemose e Dionne, 2022; EoE/Cambridge, 2020).

4. Manutenção/forma crônica (VO): bloqueador de cálcio (anlodipino), vasodilatador (hidralazina), betabloqueador e diuréticos (efeito modesto, úteis na DBP). IECA (captopril) com CAUTELA — dose inicial baixa e evitar na disfunção renal, na estenose bilateral de artéria renal e, em geral, no prematuro. Nifedipino de liberação imediata: não usar (SBP, MO nº 2/2019).

Doses (protocolo medicamentoso) — fonte em cada linha

MedicaçãoDoseObservações e fonte
Nicardipina IV0,5–4 mcg/kg/min, infusão contínuaTitulável; acesso central; cautela na asfixia perinatal (Altemose e Dionne, 2022). Pouco disponível no Brasil (SBP, 2019)
Labetalol IVAtaque 0,2–1 mg/kg; infusão 0,25–3 mg/kg/hCautela na DBP, bloqueio AV e IC instável (Altemose e Dionne, 2022)
Esmolol IVAtaque 0,5 mg/kg; infusão 50–300 mcg/kg/min (não exceder 300)RN: EoE/Cambridge 2020 (BNFc). A SBP (2019) traz 100–500 mcg/kg/min para a criança, sem dose neonatal
Hidralazina IV0,1–0,5 mg/kg/dose a cada 4–6 h; máx. 3 mg/kg/diaRN: EoE/Cambridge 2020. Criança: 0,1–0,2 mg/kg/dose (máx. 0,4) a cada 4 h (SBP, 2019)
Hidralazina VO0,25–1 mg/kg/dose, 3 a 4 vezes ao dia; máx. 5 mg/kg/diaRetenção hídrica, taquicardia (Altemose e Dionne, 2022)
Anlodipino VOInicial 0,05 mg/kg/dose, 1 a 2 vezes ao dia; máx. 0,6 mg/kg/diaManutenção (Altemose e Dionne, 2022); EoE/Cambridge: 0,1–0,2 mg/kg/dia, máx. 0,4. Na SBP (2019), dose a partir de 1 ano; no Brasil, requer manipulação
Captopril VOInicial 0,05 mg/kg/dia; máx. 6 mg/kg/dia; 1 vez ao dia a 6/6 hSBP, MO nº 2/2019 (neonatos). CAUTELA: hipotensão profunda, lesão renal aguda e hipercalemia; evitar na disfunção renal e na estenose bilateral; AEP 2022: reduzir a dose no RN; Cambridge e Altemose e Dionne (2022): não usar de rotina, sobretudo no prematuro
Furosemida / espironolactonaFurosemida 0,5–2 mg/kg 1–2 vezes ao dia; espironolactona 0,5–1 mg/kg 12/12 hEfeito modesto na PA; úteis na DBP; vigiar eletrólitos (EoE/Cambridge, 2020)

As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre no protocolo da sua unidade antes de prescrever.

6. Fluxograma terapêutico (resumo)

1. PA ≥ p95 em 3 medidas, com técnica correta → investigar a causa (renal/renovascular, cateter, coarctação, medicamentos). 2. Grave/sintomática → IV titulável com redução gradual; leve/crônica → VO (bloqueador de cálcio/vasodilatador; IECA com cautela). 3. Tratar a causa e reavaliar órgão-alvo (eco).

7. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaMO nº 2 (DC Nefrologia), abr/2019Sem documento específico localizadoFlynn et al., diretriz 2017 (tabelas a partir de 1 ano)Sem diretriz neonatal (NG136 é de adultos)Protocolos de Nefrologia AEP, 2022Sem protocolo público localizadoSem protocolo público localizadoEoE Neonatal ODN (Cambridge), v2, 2020; Oxford (TVW): sem guideline localizado
Definição≥ p95 para a idade pós-concepcional (tabela de Dionne)———Cita Dionne 2012——PAS ≥ p95 em 3 ocasiões
Quando tratar———————> p99, ou ≥ p95 com órgão-alvo/sintomas
IV na criseNitroprussiato, esmolol, hidralazina (criança)——————1ª linha labetalol ou esmolol; 2ª hidralazina
Velocidade de redução≤ 25% nas primeiras 8 h (criança)——————1/3 em 12 h, 1/3 em 12 h, 1/3 em 24 h; alvo < p90
IECA no RNCaptopril: início 0,05 mg/kg/dia, máx. 6———Reduzir a dose e vigiar——Não de rotina (hipotensão > 40%, LRA)

Leitura: a SBP (MO nº 2/2019), a AEP (2022) e a rede de Cambridge (EoE, 2020) adotam a mesma definição — PA ≥ p95 para a idade pós-concepcional, pelas tabelas de Dionne —, e todas pedem confirmação em medidas repetidas, investigação de causa renal/renovascular e da coarctação e redução gradual da PA. Divergem no uso de IECA no RN (a SBP lista o captopril para neonatos; a AEP pede dose reduzida e vigilância; Cambridge e a revisão de Altemose e Dionne (2022) evitam o uso rotineiro, sobretudo no prematuro), na velocidade de redução (SBP, para a criança: até 25% nas primeiras 8 h; referências neonatais: um terço nas primeiras 6–12 h) e nas doses neonatais de esmolol e hidralazina, que a SBP não traz. O Ministério da Saúde, a AAP (tabelas a partir de 1 ano), o NICE, a Johns Hopkins e Harvard não têm documento neonatal específico localizado. Posição do site: definição e princípios da SBP; onde a SBP não traz dose neonatal, as doses de Dionne/Altemose (2022) e de Cambridge (2020), com o captopril reservado ao nefrologista/cardiologista, em dose inicial baixa.

8. Gravidade e encaminhamento

9. Complicações

10. Erros comuns

11. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)

12. Referências

  1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Departamento Científico de Nefrologia. Hipertensão arterial na infância e adolescência. Manual de Orientação nº 2, abr. 2019. sbp.com.br
  2. DIONNE, J. M.; ABITBOL, C. L.; FLYNN, J. T. Hypertension in infancy: diagnosis, management and outcome. Pediatr Nephrol, v. 27, n. 1, p. 17-32, 2012.
  3. DIONNE, J. M.; FLYNN, J. T. Management of severe hypertension in the newborn. Arch Dis Child, v. 102, n. 12, p. 1176-1179, 2017. PubMed
  4. ALTEMOSE, K.; DIONNE, J. M. Neonatal hypertension: concerns within and beyond the neonatal intensive care unit. Clin Exp Pediatr, v. 65, n. 8, p. 367-376, 2022. doi.org/10.3345/cep.2022.00486
  5. EAST OF ENGLAND NEONATAL ODN (Cambridge University Hospitals). Guideline for the management of neonatal hypertension, NEO-ODN-2020-3, 2020. eoeneonatalpccsicnetwork.nhs.uk
  6. DE LA CERDA OJEDA, F.; HERRERO HERNANDO, C. Hipertensión arterial en niños y adolescentes. Protocolos de Nefrología Pediátrica, AEP, 2022. aeped.es
  7. FLYNN, J. T. et al. Clinical practice guideline for screening and management of high blood pressure in children and adolescents. Pediatrics, v. 140, n. 3, e20171904, 2017.

Veja também: Hipertensão arterial sistêmica (Cardiologia) e Crise hipertensiva (Urgências e Emergências).

13. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1. Prematuro em UTI, com história de cateter de artéria umbilical, evolui com PA persistentemente acima do percentil 99 para a idade pós-concepcional e hipertrofia de VE ao ecocardiograma.

Questão 1. Causa mais provável?
(A) Coarctação da aorta (B) Trombose de artéria renal associada ao cateter umbilical (C) Hipertireoidismo (D) Dor (E) Erro de aferição

Questão 2. Como confirmar o diagnóstico de hipertensão?
(A) Uma única medida elevada (B) PA ≥ p95 para a idade pós-concepcional em 3 ocasiões (C) Apenas pela clínica (D) Pelo peso (E) Pela diurese

Questão 3. Conduta na hipertensão grave/sintomática?
(A) Reduzir a PA abruptamente (B) Infusão IV titulável com redução gradual da PA (C) Apenas observação (D) iECA em bólus (E) Restrição proteica isolada

Caso 2. RN com diferença de pulsos e de pressão arterial entre os membros superiores e os inferiores.

Questão 4. Qual diagnóstico investigar?
(A) Coarctação da aorta (B) Estenose de piloro (C) Sepse (D) Hipoglicemia (E) Refluxo

Questão 5. Exame para confirmar?
(A) Radiografia de abdome (B) Ecocardiograma (C) EEG (D) Hemograma (E) Urocultura

Questão 6. Qual classe deve ser usada com CAUTELA na disfunção renal/estenose bilateral?
(A) Bloqueador de cálcio (B) Inibidores da ECA (captopril) (C) Vasodilatador direto (D) Betabloqueador (E) Diurético de alça

Gabarito comentado. Questão 1 — B. Cateter umbilical + hipertensão sugere trombose de artéria renal/aorta (ativa renina-angiotensina). Questão 2 — B. PA ≥ p95 para a idade pós-concepcional em 3 ocasiões define hipertensão. Questão 3 — B. Hipertensão grave: IV titulável com redução gradual da PA. Questão 4 — A. Gradiente de PA entre MMSS e MMII sugere coarctação da aorta. Questão 5 — B. O ecocardiograma confirma a coarctação. Questão 6 — B. Os iECA exigem cautela na disfunção renal e na estenose bilateral de artéria renal.

Revisão: outubro de 2026. Confirme as doses no protocolo da sua unidade antes de prescrever.