1. Importância do tema na Pediatria
As patologias gastrointestinais neonatais vão da enterocolite necrosante (ECN) — emergência do prematuro com alta mortalidade — às obstruções cirúrgicas e ao refluxo fisiológico. Reconhecer os sinais de alarme (vômito bilioso, distensão, sangue nas fezes) e separar o que é cirúrgico do que é conservador é tema clássico de prova.
2. Avaliação inicial
Avaliar distensão abdominal, resíduo gástrico, padrão dos vômitos (bilioso = alarme), eliminação de mecônio e sangue nas fezes. Em prematuro com piora após avanço da dieta, pensar em ECN. Radiografia de abdome é o exame inicial; o vômito bilioso obriga a afastar obstrução/volvo com urgência.
3. Fisiopatologia aplicada (ECN)
A enterocolite necrosante resulta da combinação de imaturidade intestinal (barreira mucosa e motilidade frágeis), isquemia, colonização bacteriana e resposta inflamatória exagerada, levando à necrose da parede intestinal — daí a pneumatose (gás intramural produzido por bactérias). É mais comum no prematuro, em geral após o início/avanço da alimentação enteral (sobretudo com fórmula; o leite materno é protetor). Pode evoluir para perfuração, peritonite, sepse e choque. Implicação: jejum, descompressão, antibiótico e cirurgia nas formas avançadas.
4. Diagnóstico — Estadiamento de Bell (modificado)
| Estágio | Características |
|---|---|
| I (suspeita) | Sinais sistêmicos inespecíficos + distensão/resíduo/sangue oculto; radiografia com íleo |
| II (definida) | Achados anteriores + PNEUMATOSE INTESTINAL (± gás portal); RN doente |
| III (avançada) | Deterioração grave: peritonite, PERFURAÇÃO (pneumoperitônio), choque, CIVD |
Exames essenciais
| Exame | Achado / utilidade |
|---|---|
| Radiografia de abdome | Pneumatose intestinal (clássica); gás portal; pneumoperitônio (perfuração) |
| Hemograma + plaquetas + | Plaquetopenia, leucopenia/leucocitose, PCR elevada |
PCR
Gasometria/lactato e — Acidose, sepse associada
hemocultura
5. Conduta e tratamento (ECN)
1. 1 — repouso intestinal: jejum (dieta zero), sonda gástrica aberta para descompressão, hidratação venosa e nutrição parenteral; suporte hemodinâmico. 2. 2 — antibioticoterapia de amplo espectro após culturas (Gram-negativos + anaeróbios), por 7–14 dias conforme estágio. 3. 3 — cirurgia nos estágios avançados (perfuração/necrose): drenagem peritoneal ou laparotomia com ressecção.
Doses (protocolo medicamentoso)
| Medicação | Dose | Apresentação | Observações |
|---|---|---|---|
| Ampicilina | 50 mg/kg/dose IV (intervalo por idade) | Pó para reconstituição | Esquema empírico |
| Gentamicina | 4–5 mg/kg/dose IV; intervalo por idade | Solução 10/40 mg/mL | Cobertura de Gram-negativos |
| Metronidazol | Ataque ~15 mg/kg; manutenção 7,5 mg/kg/dose (intervalo por idade) uração | Solução IV anaeróbios na ECN estabelecida/perf | Cobertura de |
As doses neonatais dependem do peso e das idades gestacional e pós-natal — confirme sempre em formulário neonatal (ex.: Neofax) e no protocolo da sua unidade antes de prescrever.
Outras patologias gastrointestinais
- Obstrução: vômitos biliosos = obstrução até prova em contrário (atresias
intestinais, má rotação com volvo do intestino médio — emergência cirúrgica).
- Mecônio: ausência/atraso de eliminação de mecônio (> 48 h) → suspeitar de
doença de Hirschsprung, íleo/rolha meconial, atresia.
- Refluxo: regurgitação no lactente que cresce bem e sem sinais de alarme
costuma ser refluxo FISIOLÓGICO — manejo conservador (posição, fracionamento), sem medicação de rotina.
Fluxograma terapêutico (resumo)
1. Passo 1 — prematuro com distensão + resíduo + sangue nas fezes → radiografia → ECN se pneumatose. 2. Passo 2 — jejum + sonda + hidratação/NP + antibiótico de amplo espectro. 3. Passo 3 — pneumoperitônio/necrose → cirurgia. (Vômito bilioso → afastar volvo/obstrução com urgência.)
6. Comparação de protocolos
Os protocolos da SBP, AAP, NICE, AEP, Oxford (Oxford Handbook), Harvard (Cloherty and Stark's) e do Ministério da Saúde do Brasil convergem nos pontos abaixo; as divergências são pontuais.
- Convergências: ECN: estadiamento de Bell; jejum + descompressão +
antibiótico; cirurgia na perfuração; leite materno protetor. Vômito bilioso = obstrução até prova em contrário.
- Divergências (pontuais): a duração exata do antibiótico/jejum por estágio e a
indicação de drenagem × laparotomia primária.
7. Critérios de internação
- Internação/ambulatorial: ECN (qualquer estágio) e obstruções → unidade/UTI
neonatal e cirurgia pediátrica; refluxo fisiológico → ambulatorial.
8. Complicações
- Perfuração, peritonite, sepse, síndrome do intestino curto (após ressecções),
estenoses intestinais; óbito nas formas graves.
9. Erros comuns
- manter a dieta diante de sinais de ECN; subvalorizar o vômito bilioso (volvo é
emergência); medicar refluxo fisiológico sem necessidade; não pesquisar Hirschsprung no atraso de mecônio; retardar a cirurgia no pneumoperitônio.
10. Considerações finais — pontos-chave (ENAMED)
- ECN: emergência do prematuro; pensar em distensão + resíduo + sangue nas
fezes após avanço da dieta.
- Pneumatose intestinal é o sinal radiológico clássico; pneumoperitônio = perfuração
(cirurgia).
- Tratamento: jejum, sonda gástrica, antibiótico de amplo espectro; cirurgia se
avançada.
- Vômito bilioso no RN = obstrução até prova em contrário (afastar volvo/má
rotação).
Pontos-chave para residência e ENAMED
- ECN: mais comum no PREMATURO, após início/avanço da dieta; LEITE
MATERNO é protetor (fórmula aumenta o risco).
- Bell: I suspeita → II definida (PNEUMATOSE) → III avançada
(pneumoperitônio/perfuração = cirurgia).
- Pneumatose intestinal = sinal radiológico clássico; gás na veia porta indica
gravidade.
- VÔMITO BILIOSO no RN = obstrução até prova em contrário — afastar má rotação
com volvo do intestino médio (isquemia extensa).
- Atraso de eliminação de mecônio (> 48 h) → pensar em Hirschsprung, íleo/rolha
meconial.
- Refluxo: na maioria é FISIOLÓGICO (cresce bem, sem alarme) → conservador,
sem medicação de rotina.
Referências (ABNT NBR 14724) 1. SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA. Enterocolite necrosante e afecções cirúrgicas do RN.
Documento Científico.
2. NEU, J.; WALKER, W. A. Necrotizing Enterocolitis. New England Journal of Medicine. 3. CLOHERTY, J. P. et al. Manual de Neonatologia. 8. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. Última revisão de conteúdo: junho/2026. Confirme as diretrizes vigentes e as doses antes de publicar.
11. Casos clínicos comentados
Prematuro de 28 semanas, no 10º dia de vida, dois dias após avançar a dieta enteral, apresenta distensão abdominal, resíduo gástrico aumentado, sangue nas fezes e instabilidade térmica. A radiografia mostra pneumatose intestinal.
RN a termo, com 2 dias de vida, apresenta vômitos biliosos e distensão abdominal, sem eliminação adequada de mecônio.