Neonatologia · Endócrino e Metabólico

Distúrbios Hidroeletrolíticos do RN

Sódio e potássio

Em resumo — posição do site

Controle diário de peso, diurese, balanço e eletrólitos (a cada 8–12 h no prematuro extremo — MS 2014). Sódio a partir do 2º–3º dia (2–4 mEq/kg/dia) e potássio só após a diurese (MS 2014). Hiponatremia sintomática (convulsão, apneia, letargia): salina 3% 2 mL/kg EV em 10–15 min, repetível até 3 vezes conforme os sintomas (padrão do site; NICE NG29 inclui o RN a termo); no prematuro, conforme protocolo da UTI. Sódio — para cima ou para baixo — nunca mais que 10–12 mEq/L em 24 h; na hipernatremia, queda ≤ 0,5 mEq/L/h. Hipercalemia com ECG alterado: gluconato de cálcio 10% 1–2 mL/kg em 5–10 min com monitor, depois glicose + insulina ou salbutamol; resina não no prematuro extremo. Potássio EV nunca em bolus. Hipernatremia no RN a termo em aleitamento = baixa ingestão: avaliar a mamada.

1. Importância do tema

Os distúrbios de sódio e potássio são frequentes no RN, sobretudo no prematuro, com grandes perdas insensíveis e rim imaturo, e podem ser fatais (a hipercalemia é emergência). A correção errada — sódio rápido demais, potássio em bolus, soro hipotônico na hiponatremia — causa dano neurológico ou arritmia.

2. Avaliação inicial e controle da hidratação

3. Fisiopatologia aplicada

4. Oferta de líquidos e eletrólitos (Ministério da Saúde, 2014)

RN1º diaDias seguintes
A termo (se não puder receber leite materno)SG 10% 60–80 mL/kg/dia (taxa de glicose 4–6 mg/kg/min), sem eletrólitos, só gluconato de cálcio 10% 4 mL/kg/dia; menos volume se asfixia+10–20 mL/kg/dia até 80–120 mL/kg/dia no fim da 1ª semana; sódio 2–4 mEq/kg/dia a partir do 2º–3º dia; potássio 1–2,5 mEq/kg/dia só após diurese, com alvo de 4–5,5 mEq/L
Pré-termoÁgua, glicose e cálcio; volume pela tabela de peso (≤ 1.000 g: 90–120; 1.001–1.500 g: 80–100; 1.501–2.500 g: 70–90 mL/kg/dia)+≈ 20 mL/kg/dia pela clínica e pelo sódio; manutenção 120–150 mL/kg/dia a partir do 5º dia; potássio 2–3 mEq/kg/dia a partir do 2º dia se diurese e potássio normais; cálcio 4 mL/kg/dia de gluconato 10%

Restringir o volume na doença renal, no canal arterial, no edema pulmonar e na cardiopatia com insuficiência cardíaca; excesso de líquidos no prematuro aumenta o risco de canal arterial, displasia broncopulmonar e hemorragia cerebral (MS 2014). Soro com glicose < 2,5% causa hemólise; máximo de 12,5% em veia periférica (MS 2014). Detalhes: Nutrição parenteral neonatal (nesta área).

5. Sódio

Hiponatremia (Na < 135 mEq/L; alvo 135–145 — MS 2014)

Hipernatremia (Na > 145 mEq/L)

6. Potássio

Hipercalemia

Gravidade (AEP 2008)ValorConduta
Leve6–6,5 mEq/L com ECG normalSuspender o potássio do soro e da NP; repetir em amostra não hemolisada (coleta capilar hemolisa); corrigir a acidose
Moderada6,5–7,5 mEq/L e/ou onda T apiculadaGluconato de cálcio, glicose + insulina, salbutamol (seção 7)
Grave> 7,5 mEq/L e alterações maiores no ECG (QRS largo, arritmia)Tudo acima + depuração extrarrenal (diálise) — UTI neonatal

A hipercalemia não oligúrica do prematuro (> 6,5 mEq/L sem lesão renal, nas primeiras 48 h) é comum abaixo de 1.500 g; a Cochrane (Vemgal e Ohlsson 2012) considera intervir a partir de 6,0 mEq/L e sugere glicose + insulina em vez de resina retal; o salbutamol inalatório reduz o potássio em cerca de 0,7 mEq/L em 4 h (Singh 2002). Sintomas são raros abaixo de 7 mEq/L (AEP 2008).

Hipocalemia (K < 3,5 mEq/L)

7. Doses de emergência

MedicamentoDoseFonteObservações
Salina 3% (hiponatremia sintomática)2 mL/kg EV em 10–15 min; repetir até 3 vezes se sintomasPadrão do site; NICE NG29 (2,7%)RN a termo; no prematuro, conforme protocolo da UTI. Depois, ≤ 10–12 mEq/L em 24 h
SF 0,9% (choque, hipovolemia)10 mL/kg, repetir conforme a perfusão (pré-renal: 10–20 mL/kg)Padrão do site (SBP/MS 2023); AEP 2008Reavaliar após cada alíquota
Gluconato de cálcio 10% (hipercalemia com ECG alterado)1–2 mL/kg EV em 5–10 min, diluídoMS 2014 (2 mL/kg); AEP 2008 (0,5–1 mL/kg); igual a Hipocalcemia neonatalMonitor cardíaco; não baixa o potássio; não misturar com bicarbonato; nunca IM
Glicose + insulina regularGlicose 0,5 g/kg + insulina 0,2 U por grama de glicose (≈ 0,1 U/kg), em 2 hAEP 2008Glicemia frequente; preferida à resina no prematuro (Cochrane 2012)
SalbutamolInalatório 400 mcg a cada 2 h até K < 5 (máx. 12 doses) ou EV 4 mcg/kgSingh, J Pediatr 2002; AEP 2008Taquicardia; o EV conforme protocolo da UTI
Bicarbonato de sódio1 mEq/kg EV em 5–10 min, só se acidoseAEP 2008Uso restrito; cautela no prematuro
Resina de troca—AEP 2008Não usar no prematuro extremo (bezoar, perfuração, obstrução)
KCl EV (hipocalemia grave)Infusão contínua, conforme protocolo da UTI; fora da UTI, até 0,2 mEq/kg/hPadrão do site (RCH 2024)Nunca em bolus; monitor; corrigir o magnésio

8. Gravidade e encaminhamento

GravidadeCritériosConduta
🟢 LeveDistúrbio discreto, assintomático, com causa clara (oferta, perda insensível), RN estávelAjustar a oferta e repetir os eletrólitos; RN a termo em casa com perda de peso leve: apoio à amamentação e reavaliação
🟡 ModeradaNa 125–130 ou 150–160 mEq/L assintomático; K 6–6,5 com ECG normal; hipocalemia moderada; RN a termo com perda de peso > 10% ou hipernatremia sem sinais de choqueUnidade neonatal (internação), correção monitorizada e investigação da causa
🔴 GraveHiponatremia sintomática ou < 125; hipernatremia com alteração neurológica ou choque; K > 6,5 com ECG alterado ou > 7,5; arritmiaUTI neonatal imediata (transferência se fora dela); salina 3% ou gluconato de cálcio antes da remoção, se houver acesso e monitor, sem atrasar o transporte

9. Comparação com as referências

ItemSBPMinistério da SaúdeAAPNICEAEPJohns HopkinsHarvardOxford / Cambridge
Versão consultadaSem documento neonatal específico localizadoAtenção à Saúde do RN, v. 2, cap. 12, 2014; v. 3, cap. 26 (cálcio), 2014Sem diretriz neonatal localizadaNG29 — IV fluid therapy in children and young people in hospital, 09/12/2015, atualizada em 11/06/2020 (inclui o RN a termo)Protocolo de Neonatologia nº 43 (IRA neonatal, hipercalemia), 2008Sem protocolo público localizadoSem protocolo público localizadoSeguem o NICE
Oferta inicial—Termo 60–80 mL/kg/dia; pré-termo pela tabela de peso; Na no 2º–3º dia; K após diurese—Termo: 50–60 mL/kg/dia no 1º dia, 70–80 no 2º, 80–100 no 3º, 100–120 no 4º, 120–150 do 5º ao 28º———Seguem o NICE
Hiponatremia sintomática———Salina 2,7% 2 mL/kg (máx. 100 mL) em 10–15 min, até 3 vezes———Seguem o NICE
Hipercalemia—Cálcio 2 mL/kg nas arritmias——Cálcio 0,5–1 mL/kg; glicose + insulina; salbutamol; diálise se > 7,5———
Velocidade de correção do sódio———≤ 12 mmol/L em 24 h———Seguem o NICE

Leitura: o Ministério da Saúde (2014) é a principal fonte nacional e define a oferta inicial, o momento de introduzir sódio e potássio e o controle laboratorial; a SBP não tem documento neonatal específico localizado sobre sódio e potássio. As referências convergem na correção lenta do sódio, no tratamento da hipercalemia em etapas (estabilizar, deslocar, remover) e no potássio nunca em bolus. Divergem no volume do 1º dia do RN a termo (60–80 mL/kg/dia no MS; 50–60 no NICE), na dose de gluconato de cálcio (2 mL/kg no MS; 0,5–1 mL/kg na AEP) e na salina hipertônica (2,7% no NICE; 3% na Espanha e no Brasil); a Cochrane mostra evidência limitada, favorecendo glicose + insulina sobre a resina no prematuro. Posição do site: MS (2014) na oferta e no controle; padrão do site (NICE/SEUP) na hiponatremia sintomática do RN a termo; AEP (2008) e Cochrane nas doses da hipercalemia, com o cálcio igual ao de Hipocalcemia neonatal.

10. Complicações e erros comuns

11. Pontos-chave (ENAMED)

12. Referências

  1. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 2, cap. 12 (Administração de líquidos e eletrólitos). 2. ed. atual. Brasília, 2014. Disponível em: bvsms.saude.gov.br.
  2. BRASIL. Ministério da Saúde. Atenção à saúde do recém-nascido: guia para os profissionais de saúde. v. 3, cap. 26 (Distúrbios do cálcio e magnésio). 2. ed. atual. Brasília, 2014. Disponível em: bvsms.saude.gov.br.
  3. ORTEGA, P. J. et al. Insuficiencia renal aguda en el periodo neonatal. Protocolos diagnóstico-terapéuticos de la AEP: Neonatología, nº 43, 2008 (hiperpotasemia). Disponível em: seneo.es.
  4. NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Intravenous fluid therapy in children and young people in hospital. NICE guideline NG29, 09 dez. 2015, atualizada em 11 jun. 2020. Disponível em: nice.org.uk.
  5. VEMGAL, P.; OHLSSON, A. Interventions for non-oliguric hyperkalaemia in preterm neonates. Cochrane Database Syst Rev, 2012, n. 5, CD005257. doi:10.1002/14651858.CD005257.pub3.
  6. SINGH, B. S. et al. Efficacy of albuterol inhalation in treatment of hyperkalemia in premature neonates. J Pediatr, v. 141, n. 1, p. 16-20, 2002. doi:10.1067/mpd.2002.125229.
  7. SEGAR, J. L.; JETTON, J. G. Fluid and electrolyte management in the neonate and what can go wrong. Curr Opin Pediatr, v. 36, n. 2, p. 198-203, 2024. doi:10.1097/MOP.0000000000001308.

Veja também: Injúria renal aguda no RN, Hipocalcemia neonatal, Endocrinopatias e Nutrição parenteral neonatal (nesta área); Distúrbios hidroeletrolíticos (Urgências — fora do período neonatal).

13. Casos clínicos (estilo ENAMED)

Caso 1. Prematuro extremo, no 2º dia, com potássio de 7,2 mEq/L em amostra não hemolisada, onda T apiculada e início de alargamento do QRS no monitor.

Questão 1. Primeira medida para estabilizar a membrana miocárdica? (A) Bicarbonato (B) Gluconato de cálcio 10% 1–2 mL/kg EV em 5–10 min, com monitor (C) Furosemida (D) Resina de troca (E) Salbutamol isolado

Questão 2. Qual conjunto DESLOCA o potássio para o intracelular? (A) Cálcio e diálise (B) Glicose + insulina e salbutamol (C) Restrição hídrica (D) Resina isolada (E) Diurético de alça

Questão 3. Por que evitar a resina retal neste RN? (A) Não tem efeito (B) Risco de bezoar, perfuração e obstrução no prematuro extremo (C) Causa hipernatremia leve apenas (D) É muito cara (E) Só funciona por via oral

Caso 2. RN a termo em aleitamento com dificuldade de pega retorna no 5º dia com perda de peso importante, irritabilidade e sódio de 152 mEq/L.

Questão 4. Distúrbio e causa mais provável? (A) Hiponatremia por SIADH (B) Hipernatremia por baixa ingestão (C) Hipercalemia (D) Hipocalcemia (E) Acidose tubular

Questão 5. Cuidado essencial na correção? (A) O mais rápido possível (B) Queda ≤ 0,5 mEq/L/h e ≤ 10–12 mEq/L em 24 h (C) Não corrigir (D) Solução hipertônica (E) Suspender toda a oferta hídrica

Questão 6. Por que o prematuro é mais suscetível aos distúrbios hidroeletrolíticos? (A) Excesso de massa muscular (B) Grandes perdas insensíveis e imaturidade renal (C) Hiperfunção renal (D) Baixa superfície corporal (E) Reservas elevadas de glicogênio

Gabarito comentado. Q1 — B. Q2 — B. Q3 — B (AEP 2008). Q4 — B. Q5 — B: risco de edema cerebral. Q6 — B.

Revisão: outubro de 2026.