A nefropatia por IgA é a glomerulonefrite primária mais frequente no mundo, e a vasculite por IgA — a clássica púrpura de Henoch-Schönlein — é a sua expressão sistêmica, especialmente na infância. Compreender que ambas nascem do mesmo defeito imunológico ajuda a explicar um achado que intriga muitas famílias: a urina que “escurece” poucos dias depois de um simples resfriado.
1.Duas doenças, um mesmo mecanismo
A nefropatia por IgA (NIgA), descrita por Berger em 1968, caracteriza-se pela deposição de imunocomplexos contendo IgA1 no mesângio glomerular. A vasculite por IgA (IgAV) — denominação atual da púrpura de Henoch-Schönlein — é uma vasculite de pequenos vasos mediada pelos mesmos imunocomplexos, que se depositam não só nos rins, mas também na pele, nas articulações e no trato gastrointestinal.
A visão contemporânea entende as duas como um espectro da mesma doença: o substrato molecular é idêntico, e a diferença está na extensão do acometimento. Quando a deposição é restrita ao rim, falamos em NIgA; quando é sistêmica e cursa com púrpura palpável, falamos em IgAV. A IgAV com comprometimento renal significativo é, histologicamente, indistinguível da NIgA.
Uma criança que se apresenta com púrpura de Henoch-Schönlein e outra que chega com hematúria isolada após uma faringite podem compartilhar exatamente a mesma alteração imunológica. O olhar do pediatra para o rim deve ser o mesmo nos dois cenários.
2.Epidemiologia e contexto pediátrico
A IgAV é a vasculite mais comum da infância, com pico entre 3 e 10 anos, discreto predomínio no sexo masculino e clara sazonalidade — concentra-se no outono e no inverno, em paralelo às infecções respiratórias. A maioria dos casos pediátricos é autolimitada, mas o prognóstico a longo prazo é ditado essencialmente pelo grau de acometimento renal.
A NIgA, por sua vez, costuma manifestar-se um pouco mais tarde — adolescentes e adultos jovens —, embora possa surgir em crianças. É uma causa relevante de doença renal crônica: uma parcela substancial dos pacientes evolui para perda progressiva de função ao longo de décadas, o que justifica o acompanhamento mesmo de quadros aparentemente brandos.
3.Como se formam os imunocomplexos: a hipótese dos quatro golpes
A IgA1 possui uma região de dobradiça (hinge) rica em resíduos de serina e treonina, decorada por O-glicanos. A patogênese é descrita como um processo sequencial de “multi-hits” (múltiplos golpes), em que cada etapa prepara a seguinte:
- Produção de IgA1 deficiente em galactose (Gd-IgA1). Por uma desregulação das enzimas de glicosilação (notadamente redução da C1GALT1), parte das moléculas de IgA1 deixa de receber galactose nos O-glicanos, expondo resíduos terminais de N-acetilgalactosamina (GalNAc). Essa Gd-IgA1 é produzida sobretudo pelos plasmócitos das mucosas.
- Geração de autoanticorpos. Os resíduos de GalNAc expostos funcionam como um neoantígeno: o sistema imune passa a produzir autoanticorpos (das classes IgG e IgA) que reconhecem especificamente a Gd-IgA1.
- Formação dos imunocomplexos circulantes. A ligação desses autoanticorpos à Gd-IgA1 — que ainda tende a se autoagregar em formas poliméricas — origina imunocomplexos grandes. Por seu tamanho, escapam à depuração hepática e permanecem em circulação.
- Deposição mesangial e injúria renal. Os imunocomplexos depositam-se no mesângio, ativam as células mesangiais (proliferação, produção de matriz e de citocinas) e o sistema complemento — predominantemente pelas vias alternativa e da lectina, com depósito de C3 e ausência característica de C1q. O resultado é a inflamação glomerular.
Vale notar que a simples presença de Gd-IgA1 não basta para causar doença — até um quarto dos parentes de primeiro grau de pacientes têm níveis elevados sem nunca adoecer. São necessários os golpes subsequentes (autoanticorpos, formação e deposição dos complexos), o que explica a forte agregação familiar e o componente genético da doença.
4.A ligação entre infecções, resfriados e hematúria
Talvez o traço clínico mais característico — e o que mais gera dúvida nas famílias — seja a hematúria macroscópica que surge junto com uma infecção de via aérea superior ou do trato gastrointestinal. O sangramento aparece em geral de 1 a 3 dias após o início do resfriado ou da faringite, fenômeno conhecido como hematúria sinfaringítica (“sin” = simultânea à faringite).
O mecanismo é coerente com a fisiopatologia: a infecção da mucosa estimula o tecido linfoide associado às mucosas, que responde com um aumento agudo da produção de IgA1 — inclusive da forma deficiente em galactose. Isso eleva transitoriamente a formação e a deposição de imunocomplexos no mesângio, intensificando a inflamação glomerular e, com ela, o sangramento. Entre os episódios, a hematúria costuma persistir de forma apenas microscópica.
A hematúria sinfaringítica distingue-se da glomerulonefrite pós-estreptocócica pelo intervalo: na NIgA a hematúria é concomitante à infecção (1–3 dias); na pós-estreptocócica, surge 1 a 3 semanas depois. Essa janela temporal é uma das pistas clínicas mais úteis à beira do leito.
5.Apresentação clínica
Nefropatia por IgA
- Hematúria macroscópica recorrente associada a infecções (o padrão sinfaringítico).
- Hematúria microscópica persistente, frequentemente com proteinúria, detectada de forma incidental em exame de rotina.
- Menos comumente, síndrome nefrótica, hipertensão ou injúria renal aguda.
Vasculite por IgA (Henoch-Schönlein)
A tétrade clássica reúne:
- Púrpura palpável, simétrica, com predomínio em membros inferiores e nádegas, sem plaquetopenia.
- Artrite ou artralgia, sobretudo de grandes articulações.
- Dor abdominal, que pode ser intensa e, raramente, complicar com intussuscepção.
- Acometimento renal (nefrite da IgAV), variando de hematúria isolada a quadros nefríticos/nefróticos.
6.Diagnóstico
O diagnóstico articula avaliação clínica, exame de urina, laboratório e — quando indicada — a biópsia renal, que permanece o padrão de referência. Ainda não há biomarcador sérico validado para uso clínico de rotina: a dosagem de Gd-IgA1, embora promissora, segue restrita à pesquisa, sobretudo pela falta de padronização dos ensaios.
Avaliação inicial
- Sedimento urinário: hematúria de origem glomerular — hemácias dismórficas e, quando presentes, cilindros hemáticos.
- Proteinúria: quantificada pela relação proteína/creatinina ou albumina/creatinina em amostra isolada.
- Função renal e pressão arterial: creatinina, estimativa de TFG e aferição cuidadosa da PA, marcadores prognósticos importantes.
Biópsia renal
É o exame definidor quando há proteinúria significativa, alteração de função renal ou dúvida diagnóstica:
- Imunofluorescência (achado-chave): depósito mesangial dominante ou codominante de IgA, em geral acompanhado de C3 e, com frequência, IgG/IgM, em padrão granular grosseiro. O C1q tipicamente é negativo, o que ajuda a afastar nefrite lúpica.
- Microscopia óptica: hipercelularidade mesangial, podendo haver proliferação endocapilar, crescentes e graus variados de esclerose.
| Letra | Parâmetro | O que avalia |
|---|---|---|
| M | Hipercelularidade mesangial | Proliferação das células do mesângio |
| E | Hipercelularidade endocapilar | Proliferação dentro dos capilares glomerulares |
| S | Esclerose segmentar | Cicatriz em parte do tufo glomerular |
| T | Atrofia tubular / fibrose intersticial | Dano crônico do interstício |
| C | Crescentes | Proliferação extracapilar (marcador de atividade) |
Particularidades na vasculite por IgA
Em crianças com a tétrade clássica, o diagnóstico costuma ser clínico, reservando-se a biópsia para casos atípicos ou com nefrite expressiva. A biópsia de pele mostra vasculite leucocitoclástica com depósito de IgA nas paredes dos pequenos vasos — espelho cutâneo do mesmo mecanismo que age no glomérulo.
• Hematúria simultânea ao resfriado sugere NIgA; semanas depois, pensa-se em pós-estreptocócica.
• IgA mesangial + C1q negativo é o par que aponta para nefropatia/vasculite por IgA e afasta lúpus.
• Na IgAV, mesmo após a resolução da púrpura, o rim deve ser monitorado: a urina pode alterar-se semanas depois do quadro agudo.
7.Prognóstico e seguimento
A maioria das crianças com IgAV evolui bem, mas o subgrupo com nefrite e, sobretudo, com proteinúria persistente exige vigilância prolongada. Na NIgA, os principais marcadores de pior evolução são proteinúria mantida, hipertensão, redução da TFG ao diagnóstico e achados histológicos desfavoráveis (especialmente os parâmetros T e C do MEST-C). Por isso, mesmo após a melhora clínica, recomenda-se acompanhamento periódico com exame de urina, função renal e pressão arterial — a doença pode ser silenciosa por anos.
Ver a urina escurecer durante um resfriado assusta, mas costuma refletir um mecanismo já conhecido e tratável quando bem acompanhado. O essencial é não interromper o seguimento: a maior parte do desfecho renal se decide no monitoramento de longo prazo, não no episódio agudo.
8.Casos clínicos comentados
Menino de 9 anos com episódio de urina "cor de coca-cola" (hematúria macroscópica) que surgiu cerca de 2 dias após o início de uma faringite. Já teve episódio semelhante no inverno passado. Pressão arterial normal, sem edema; entre os episódios, o exame de urina mostra hematúria microscópica.
Menina de 6 anos com púrpura palpável simétrica em membros inferiores e nádegas, dor abdominal e artralgia de tornozelos, surgidas após um quadro respiratório. Plaquetas normais. A família pergunta se é preciso vigiar os rins.
9.Referências selecionadas
- Suzuki H, et al. The pathophysiology of IgA nephropathy. Journal of the American Society of Nephrology.
- Wyatt RJ, Julian BA. IgA nephropathy. New England Journal of Medicine.
- Rodrigues JC, et al. Update on pathology of IgA nephropathy. Jornal Brasileiro de Nefrologia (SciELO).
- Trimarchi H, et al. Oxford Classification of IgA nephropathy (MEST-C) — atualização do grupo de trabalho internacional.
- KDIGO 2021 Clinical Practice Guideline for the Management of Glomerular Diseases — capítulo de nefropatia por IgA e vasculite por IgA.
- Ozen S, et al. Critérios classificatórios para vasculite por IgA (púrpura de Henoch-Schönlein) na infância — EULAR/PRINTO/PRES.