Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
A mononucleose infecciosa é uma infecção pelo vírus Epstein-Barr, que passa pela saliva — por isso é chamada de "doença do beijo". Em bebês e crianças pequenas costuma ser leve ou nem ser percebida; em adolescentes, dá febre, dor de garganta forte, ínguas no pescoço e muito cansaço. Na maioria das vezes dá para cuidar em casa, com líquidos, alimentos frios e remédio para dor e febre. Antibiótico não ajuda, e a amoxicilina pode causar manchas na pele. Esportes de contato ficam suspensos por pelo menos 3 a 4 semanas, porque o baço fica aumentado e pode se romper. Vá ao pronto-socorro se houver respiração ruidosa ou difícil, baba, não conseguir engolir nem água, dor forte na barriga do lado esquerdo, olhos amarelos, manchas roxas ou sangramentos.
1.O que é
- Causa: o vírus Epstein-Barr, da família do herpes. Passa pela saliva — beijo, copos, talheres e brinquedos levados à boca. A pessoa pode eliminar o vírus na saliva por meses.
- Quem pega: quase todo mundo se infecta em algum momento da vida. Na criança pequena, a infecção muitas vezes passa como um resfriado ou febre sem explicação. A forma típica aparece mais em adolescentes e adultos jovens.
- Evolução: a maioria melhora em 2 a 4 semanas; o cansaço pode durar mais tempo.
- Como se confirma: o pediatra suspeita pelo exame e pode pedir exame de sangue (hemograma e testes para o vírus). Abaixo de 4 anos, o teste rápido (Monoteste) muitas vezes dá negativo mesmo com a doença, e também pode dar negativo na primeira semana. Nesses casos, o pediatra pode pedir outro exame de sangue, mais específico.
2.Como aparece (sinais e sintomas)
- Febre.
- Dor de garganta, com amígdalas grandes e, às vezes, placas brancas; pintinhas vermelhas no céu da boca.
- Ínguas (gânglios) no pescoço, principalmente atrás, dos dois lados; às vezes em outros lugares do corpo.
- Muito cansaço e mal-estar, que podem durar semanas.
- Pálpebras inchadas.
- Baço e fígado aumentados (o pediatra percebe no exame; nem sempre dá para sentir).
- Manchas na pele depois de tomar amoxicilina ou ampicilina — é muito comum na mononucleose e nem sempre significa alergia ao remédio. Conte ao pediatra antes de rotular seu filho como alérgico.
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Febre, dor de garganta, ínguas e cansaço; engole e bebe bem; respira sem dificuldade; sem dor na barriga; sem olhos amarelos, manchas roxas ou sangramento | Cuidados em casa, sem esportes de contato. Retorno ao pediatra em 7 a 10 dias, ou antes se piorar |
| 🟡 Procure o pediatra | Dor forte para engolir, comendo e bebendo pouco, mas ainda aceitando líquidos; amígdalas muito grandes, mas respirando bem; febre alta por mais de 7 a 10 dias; exame de sangue com alteração do fígado ou das plaquetas, sem sangramento | Consulta em 24 a 48 horas para reavaliar e, se preciso, fazer exames. Se estiver bebendo muito pouco, pode precisar ficar em observação no pronto-socorro |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Respiração ruidosa ou difícil, ronco forte com pausas, baba, não consegue engolir saliva nem água, fica sentada inclinada para a frente para respirar; sinais de desidratação; dor forte na barriga do lado esquerdo ou dor no ombro esquerdo, palidez, tontura ou desmaio; olhos ou pele amarelos; manchas roxas pelo corpo ou sangramentos; palidez intensa; febre que não cede com piora do estado geral; sonolência, confusão, convulsão, fraqueza nas pernas ou boca torta; aspecto muito doente | Pronto-socorro agora. Na dificuldade para respirar ou dor forte na barriga com palidez ou desmaio, ligue para o SAMU 192 |
Crianças que merecem mais atenção
- Crianças pequenas: nelas, as amígdalas muito grandes atrapalham a respiração com mais frequência.
- Imunidade baixa (doença ou remédios que diminuem as defesas), transplantados.
- Baço muito aumentado e quem pratica esportes de contato ou de colisão.
- Doença prévia do fígado ou do sangue.
4.Como cuidar em casa
- Líquidos com frequência: água, leite, sucos, caldos. Alimentos frios e pastosos (iogurte, sorvete, purês, sopas mornas) descem melhor.
- Remédio para dor e febre nos horários combinados, para que a criança consiga beber e comer.
- Repouso relativo: não precisa ficar deitada o dia todo; atividades calmas conforme a disposição.
- Gargarejo com água morna e sal ajuda os maiores que sabem gargarejar.
- Esportes: pausa de pelo menos 3 a 4 semanas desde o início dos sintomas para futebol, lutas, basquete, trampolim, levantar peso, educação física intensa e brincadeiras brutas. A maioria das rupturas do baço acontece nas primeiras 3 a 4 semanas, muitas vezes sem pancada. A volta é liberada pelo pediatra, com a criança sem febre, bem e sem baço aumentado, começando por atividades leves e sem contato.
- Não compartilhe copos, talheres, garrafinhas e escovas de dente; evite beijos durante a doença.
- Escola: não há afastamento obrigatório. A criança volta quando se sentir bem e estiver sem febre há 24 horas, mas fica fora da educação física até ser liberada.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
Para dor e febre — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:
- Dipirona: 15 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
- Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia). Na mononucleose o fígado costuma ficar inflamado: nunca passe da dose e não use por mais de 48–72 h sem reavaliação, principalmente se a criança estiver comendo e bebendo pouco ou tomando outro produto com paracetamol.
- Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; não use se houver manchas roxas ou sangramentos, na suspeita de dengue, na catapora e na desidratação.
- Não alterne antitérmicos.
Antibiótico: não trata a mononucleose, que é causada por vírus. As placas brancas na garganta, sozinhas, não indicam antibiótico. O pediatra só receita se houver uma infecção por bactéria confirmada (por exemplo, estreptococo na garganta) e, nesse caso, escolhe um remédio que não seja a amoxicilina. Se receitado, siga os horários e complete o tempo; não guarde sobras.
Corticoide: não é usado na mononucleose comum. Fica reservado para complicações, como amígdalas tão grandes que atrapalham a respiração — em geral no hospital. Nunca dê corticoide por conta própria "para a garganta": ele pode esconder outras doenças que precisam ser descobertas.
Não use: amoxicilina ou ampicilina sem receita; antivirais (não ajudam); ácido acetilsalicílico (AAS).
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Respiração ruidosa ou difícil, ronco forte com pausas, baba, voz abafada.
- Não consegue engolir saliva nem água, ou mostra sinais de desidratação (boca seca, pouco xixi).
- Dor forte na barriga, principalmente do lado esquerdo, ou dor no ombro esquerdo — mesmo sem pancada.
- Palidez, tontura, coração acelerado ou desmaio.
- Olhos ou pele amarelos, vômitos que não param.
- Manchas roxas pelo corpo, sangramento no nariz ou na gengiva, palidez intensa.
- Febre que não passa com piora do estado geral.
- Sonolência, confusão, convulsão, fraqueza nas pernas, boca torta ou desequilíbrio.
- Dor no peito ou falta de ar.
Como levar
- Com dificuldade para respirar: deixe a criança sentada no colo, na posição em que respira melhor. Não tente olhar a garganta com colher e não a agite. Ligue para o SAMU 192.
- Com dor forte na barriga e palidez ou desmaio: deixe-a deitada de barriga para cima, sem comer nem beber, e ligue para o SAMU 192.
- Se estiver só bebendo pouco, dê o analgésico e ofereça líquidos em pequenos goles antes de sair.
- Leve a caderneta de saúde, os exames já feitos e os remédios em uso — conte se ela tomou amoxicilina.
7.Como prevenir
- Não existe vacina contra o vírus Epstein-Barr.
- Não compartilhar copos, talheres, garrafinhas e escovas de dente.
- Lavar as mãos com frequência.
- Ter tido a doença uma vez protege: a mononucleose típica raramente se repete.
8.Dúvidas e mitos comuns
Precisa de antibiótico por causa das placas na garganta? Não. As placas fazem parte da infecção pelo vírus. O antibiótico só é usado se houver bactéria confirmada.
Ele tomou amoxicilina e ficou cheio de manchas. É alérgico? Nem sempre. Essas manchas são muito comuns na mononucleose. Conte ao pediatra, que vai avaliar antes de registrar alergia.
O exame deu negativo. Então não é mononucleose? Não necessariamente. Em menores de 4 anos e na primeira semana, o teste rápido pode dar negativo. O pediatra decide se precisa de outro exame.
Por que não pode jogar bola se já está se sentindo bem? Porque o baço pode continuar aumentado e frágil por semanas, e uma pancada pode rompê-lo. Espere pelo menos 3 a 4 semanas e a liberação do pediatra.
O cansaço vai passar? Sim. Pode durar algumas semanas; respeite o ritmo da criança e a volta gradual às atividades.
- É uma infecção por vírus: antibiótico não ajuda e a amoxicilina pode causar manchas.
- Líquidos, alimentos frios e remédio para dor e febre nos horários combinados.
- Nada de esportes de contato por pelo menos 3 a 4 semanas, até a liberação do pediatra.
- Não passe da dose de paracetamol: o fígado costuma estar inflamado.
- Respiração difícil, baba, não engolir água, dor na barriga do lado esquerdo, olhos amarelos ou manchas roxas: pronto-socorro.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
- Dor de garganta (faringoamigdalite)
- Ínguas (gânglios aumentados) na criança
- Convulsão febril e primeira crise
- Alergia a Medicamentos
Versão para profissionais: Mononucleose infecciosa (vírus Epstein-Barr) (Patologias do consultório).
Este guia compara as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde, da Academia Americana de Pediatria (AAP), do NICE (Reino Unido), da Associação Espanhola de Pediatria (AEP), do Johns Hopkins, de Harvard (Boston Children's), de Oxford e de Cambridge.
Onde concordam:
- O tratamento é de suporte (descanso, líquidos e remédio para dor e febre), sem antibiótico nem antiviral.
- O corticoide não é usado nos casos comuns; fica para o inchaço importante da garganta.
- Todas alertam para as manchas na pele com amoxicilina e para o risco de ruptura do baço aumentado.
Onde há diferenças:
- Tempo sem esporte de contato: 3 semanas em fontes americanas e espanholas, 1 mês no NHS e "até o baço voltar ao normal" na AAP. Este guia usa pelo menos 3 a 4 semanas, com liberação do pediatra.
- A SBP e o Ministério da Saúde não têm documento específico sobre mononucleose; por isso, este guia segue a AAP e as fontes espanholas.
Fontes conferidas em outubro de 2026.
10.Fontes
Baseado no documento profissional Mononucleose infecciosa (vírus Epstein-Barr) desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- American Academy of Pediatrics (HealthyChildren.org). Mononucleosis.
- NHS. Glandular fever.
- American Family Physician. Infectious Mononucleosis: Rapid Evidence Review, 2023.
- Centers for Disease Control and Prevention. Clinical Overview of Epstein-Barr Virus.
- AEPap. Diagnóstico de la infección por virus de Epstein-Barr en la edad pediátrica, 2014.