Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
Ínguas são os gânglios linfáticos (linfonodos), pequenos "filtros" do sistema de defesa espalhados pelo corpo. Na criança é muito comum senti-los no pescoço, principalmente durante e depois de resfriados e dores de garganta. Na grande maioria das vezes são pequenos, macios, soltos e sem dor, e diminuem sozinhos em 2 a 4 semanas — sem antibiótico. Quando a íngua fica grande, vermelha, quente e dolorida, pode ser infecção por bactéria, e o pediatra trata. Procure o pediatra logo se a íngua estiver acima da clavícula, for dura, presa, maior que 2 a 3 cm ou crescendo, ou vier com febre prolongada, suor à noite ou perda de peso. Vá ao pronto-socorro se houver dificuldade para respirar, engolir ou mexer o pescoço, ou se a criança estiver muito abatida.
1.O que é
- Linfonodo (gânglio ou íngua): estrutura do sistema de defesa que "trabalha" quando há uma infecção na região que ele drena. Por isso aumenta com resfriado, dor de garganta, dentes inflamados ou machucados na pele e no couro cabeludo.
- Quando é considerado aumentado: mais de 1 cm no pescoço e nas axilas; mais de 1,5 cm na virilha; mais de 0,5 cm perto do cotovelo. Qualquer íngua acima da clavícula deve ser avaliada.
- Principais causas:
- reação a infecções por vírus — a mais comum, quase sempre sem gravidade;
- infecção por bactéria no próprio gânglio (adenite): em geral de um lado só, dolorosa, vermelha e quente;
- doença da arranhadura do gato: uma bolinha no local do arranhão e, 1 a 3 semanas depois, uma íngua dolorida no braço, na axila ou no pescoço; melhora sozinha em 1 a 3 meses;
- micobactéria (parente da bactéria da tuberculose): em crianças de 1 a 5 anos, íngua de um lado do pescoço, pouco dolorida, com a pele arroxeada e fina, sem outros sintomas;
- mononucleose: ínguas no pescoço dos dois lados, com febre e dor de garganta;
- raramente, doenças do sangue ou câncer, que têm sinais próprios (veja o semáforo).
2.Como aparece (sinais e sintomas)
- Íngua comum (reacional): pequena, macia, que se mexe sob os dedos, pouco ou nada dolorida, geralmente no pescoço, aparecendo junto com resfriado ou dor de garganta.
- Adenite por bactéria: íngua que cresce em poucos dias, dolorida, com a pele vermelha e quente por cima, às vezes com febre.
- Sinais que merecem avaliação rápida: acima da clavícula; dura, presa, que não se mexe; maior que 2 a 3 cm; crescendo; que não diminui em 4 a 6 semanas; ínguas em vários lugares do corpo; com febre prolongada, suor à noite, perda de peso, palidez, manchas roxas, cansaço ou dor nos ossos.
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Ínguas menores que 2 cm, macias, soltas, pouco ou nada doloridas, no pescoço, junto com resfriado, dor de garganta ou machucado na pele; criança bem-disposta | Não precisa de antibiótico. Mostre ao pediatra, que mede a íngua e reavalia em 2 a 4 semanas |
| 🟡 Procure o pediatra | Íngua dolorida, vermelha e quente, em criança com mais de 3 meses, bem, bebendo e comendo; arranhão de gato com íngua; íngua arroxeada e pouco dolorida em criança pequena; íngua que dura mais de 4 semanas ou cresce. Consulta em até 24–48 h se: acima da clavícula, dura, presa, maior que 2 a 3 cm, crescendo, com febre prolongada, suor à noite ou perda de peso | Consulta em 24 horas na íngua inflamada (o pediatra pode receitar antibiótico e reavaliar em 48–72 h) e em até 24–48 h nos sinais de alerta, para exames e, se preciso, encaminhamento rápido ao especialista. Nos demais, consulta em poucos dias |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Criança muito abatida ou com aspecto muito doente; bebê com menos de 3 meses com íngua inflamada; bebê com febre alta; íngua que amolece, fica muito vermelha ou cresce rápido; sem melhora após 2–3 dias de antibiótico; não consegue beber ou tomar o remédio; dificuldade para abrir a boca, engolir, mexer ou esticar o pescoço, baba, respiração ruidosa; falta de ar, principalmente ao deitar, tosse persistente, inchaço do rosto e do pescoço; palidez intensa, manchas roxas, sangramentos; febre há 5 dias ou mais com olhos vermelhos, lábios rachados, manchas no corpo ou mãos e pés inchados | Pronto-socorro agora. Com dificuldade para respirar ou falta de ar ao deitar, ligue para o SAMU 192 |
Crianças que merecem mais atenção
- Bebês com menos de 3 meses.
- Imunidade baixa.
- Febre prolongada, suor à noite ou perda de peso.
- Contato com pessoa com tuberculose.
- Contato com gatos, principalmente filhotes.
- Uso recente de corticoide (pode esconder doenças do sangue).
4.Como cuidar em casa
- Íngua comum: não precisa de tratamento próprio. Cuide da causa (resfriado, dor de garganta, machucado na pele) e observe.
- Não aperte, não massageie e não tente espremer a íngua para "ver se diminui". Não esquente nem fure.
- Anote a data em que apareceu e observe se cresce, se fica dura ou dolorida; se quiser, marque o tamanho comparando com uma moeda ou grão (ervilha, feijão). O pediatra mede em centímetros na consulta.
- Adenite em tratamento: dê o antibiótico nos horários certos e o remédio para dor. Espere melhora da dor e da vermelhidão em 2 a 3 dias; o tamanho diminui mais devagar, em semanas.
- Leve para as consultas de retorno combinadas, mesmo que a criança esteja bem.
- Cuide dos dentes e dos machucados de pele; lave bem arranhões de gato com água e sabão.
- Escola: a íngua em si não passa para os outros. A criança volta quando estiver sem febre há 24 horas e bem-disposta.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
Para dor e febre — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:
- Dipirona: 15 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
- Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia); não use por mais de 48–72 h sem reavaliação.
- Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite na suspeita de dengue, na catapora e na desidratação.
- Não alterne antitérmicos.
Antibiótico — só com receita:
- Não é usado na íngua comum, que é reação a vírus.
- Na adenite por bactéria, o pediatra receita antibiótico pela boca, em geral por 5 a 7 dias. Dê nos horários certos e complete o tempo, mesmo que a dor passe antes; não guarde sobras.
- Na doença da arranhadura do gato, o antibiótico nem sempre é necessário; o pediatra indica quando a íngua é grande e dolorida.
- Na íngua por micobactéria, o tratamento costuma ser a retirada cirúrgica, com o cirurgião pediátrico.
Não use:
- Corticoide (como prednisolona) sem diagnóstico — pode esconder leucemia ou linfoma e atrasar o diagnóstico.
- Antibiótico por conta própria ou "um atrás do outro" em íngua que não dói e não some — nesse caso, o que precisa é de avaliação.
- Pomadas, compressas quentes, emplastros ou furar a íngua em casa.
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Criança muito abatida, febre alta que não cede ou bebê com menos de 3 meses com íngua inflamada.
- Íngua que amolece, fica muito vermelha, cresce rápido ou não melhora após 2–3 dias de antibiótico.
- Dificuldade para abrir a boca, engolir, mexer o pescoço; baba; respiração ruidosa.
- Falta de ar, principalmente ao deitar; tosse persistente; inchaço do rosto e do pescoço.
- Palidez intensa, manchas roxas ou sangramentos.
- Febre há 5 dias ou mais com olhos vermelhos, lábios rachados, manchas pelo corpo ou mãos e pés inchados (pode ser doença de Kawasaki, que precisa de tratamento no hospital).
Como levar
- Com dificuldade para respirar ou falta de ar: não deite a criança; deixe-a sentada, na posição em que se sente melhor, e ligue para o SAMU 192.
- Se houver chance de precisar drenar a íngua, não dê comida no caminho; dê só o remédio para dor.
- Leve a caderneta de saúde, os exames já feitos e os remédios em uso (inclusive antibióticos e corticoides).
7.Como prevenir
- Vacinas em dia (incluindo a BCG, que protege contra formas graves de tuberculose).
- Tratar bem as infecções de garganta, dentes e pele.
- Cuidado com gatos, principalmente filhotes: evitar brincadeiras que causem arranhões, lavar logo os arranhões e manter o animal sem pulgas.
8.Dúvidas e mitos comuns
Íngua é sinal de câncer? Quase nunca. A imensa maioria é reação a infecções comuns. O pediatra reconhece os sinais que pedem investigação.
Precisa de antibiótico para a íngua diminuir? Não na íngua comum. Ela diminui sozinha, às vezes em semanas.
Posso dar corticoide para desinchar? Não. O corticoide pode esconder doenças que precisam ser diagnosticadas.
Meu filho foi arranhado pelo gato e apareceu uma íngua. É grave? Costuma ser a doença da arranhadura do gato, que melhora sozinha em semanas. Mostre ao pediatra.
- Íngua pequena, macia e solta durante um resfriado é comum e diminui em semanas.
- Não aperte nem esquente a íngua; anote quando apareceu e se cresce.
- Íngua vermelha, quente e dolorida: pediatra em 24 horas.
- Acima da clavícula, dura, presa, crescendo ou com febre prolongada, suor noturno ou perda de peso: consulta em até 24–48 h.
- Nunca dê corticoide sem diagnóstico; falta de ar ou dificuldade para engolir: pronto-socorro.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
- Mononucleose infecciosa (doença do beijo)
- Dor de garganta (faringoamigdalite)
- Resfriado comum e infecções de vias aéreas superiores
- Convulsão febril e primeira crise
Versão para profissionais: Linfonodomegalias e linfadenites na criança (Patologias do consultório).
Este guia compara as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde, da Academia Americana de Pediatria (AAP), do NICE (Reino Unido), da Associação Espanhola de Pediatria (AEP), do Johns Hopkins, de Harvard (Boston Children's), de Oxford e de Cambridge.
Onde concordam:
- Íngua pequena e macia depois de uma infecção é comum e pode ser observada por 2 a 4 semanas.
- Sinais de alerta: acima da clavícula, dura, presa, maior que 2–3 cm, crescendo, ou com febre prolongada, suor noturno ou perda de peso.
- Não se deve dar corticoide antes do diagnóstico, porque ele pode esconder uma doença grave.
Onde há diferenças:
- Com sinais de alerta, o NICE é o que encaminha mais depressa ao especialista. Este guia segue a SBP: o pediatra examina em 24–48 horas e decide exames e encaminhamento.
- Tempo de antibiótico na íngua infectada: 5 a 7 dias na SBP e 10 a 14 dias na referência espanhola. Este guia segue a SBP.
Fontes conferidas em outubro de 2026.
10.Fontes
Baseado no documento profissional Linfonodomegalias e linfadenites na criança desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Linfonodomegalia periférica na criança e no adolescente: quando pensar em câncer, 2019.
- American Family Physician. Unexplained Lymphadenopathy: Evaluation and Differential Diagnosis, 2016.
- NICE. NG12 — Suspected cancer: recognition and referral.
- AEP / SEIP. Adenitis cervical superficial y abscesos cervicales profundos, 2023.
- American Heart Association. Diagnosis, Treatment, and Long-Term Management of Kawasaki Disease, 2017.