Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF
O crupe é uma inflamação por vírus da laringe (onde fica a voz) e da traqueia. É mais comum entre 6 meses e 3 anos. Depois de 1 a 2 dias de resfriado, aparecem tosse rouca "de cachorro", rouquidão e um barulho agudo ao puxar o ar (chamado estridor), que costumam piorar à noite e com o choro. Dura de 3 a 7 dias, com o pior nas primeiras 24–48 horas. O pediatra costuma indicar uma única dose de corticoide, que alivia em poucas horas, inclusive nos casos leves. O quadro leve é cuidado em casa. Vá ao pronto-socorro se o barulho aparecer com a criança calma ou dormindo, se as costelas ou o pescoço afundarem ao respirar, se houver lábios roxos, palidez, agitação ou sonolência, ou se a criança babar e não conseguir engolir.
1.O que é
- Crupe (laringotraqueíte viral): o vírus incha a parte logo abaixo das cordas vocais, que na criança pequena já é estreita. Por isso a tosse fica rouca e o ar faz barulho ao entrar.
- Causa: principalmente o vírus parainfluenza; também outros vírus respiratórios, como os da gripe e da COVID-19.
- Crupe espasmódico: crises que começam de repente à noite, sem febre, e melhoram em poucas horas.
- Não é o mesmo que "garganta inflamada": o problema está mais abaixo, na laringe.
2.Como aparece (sinais e sintomas)
- Coriza e febre baixa por 12–48 horas.
- Depois: tosse metálica, "de cachorro" ou "de foca", rouquidão e estridor (som agudo, como um chiado alto, ao puxar o ar).
- Tudo piora à noite, com o choro e com a agitação.
- Estridor só quando chora = quadro leve. Estridor com a criança calma ou dormindo = quadro que precisa de avaliação médica.
3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro
| Cor | O que você observa | O que fazer |
|---|---|---|
| 🟢 Cuidar em casa | Tosse "de cachorro" e rouquidão; barulho ao respirar só quando chora ou se agita; respiração tranquila, sem afundar as costelas; criança ativa, brincando, bebendo | Mantenha a criança calma, ofereça líquidos. Fale com o pediatra: mesmo no crupe leve ele costuma indicar a dose única de corticoide |
| 🟡 Procure o pediatra | Barulho ao respirar com a criança calma, que vai e volta; afundamento leve no pescoço ou entre as costelas; respiração mais rápida; criança alerta, com momentos de agitação. Também: tosse ou rouquidão que não melhoram em 5–7 dias, febre por mais de 3 dias, crises de crupe repetidas | Com barulho em repouso: avaliação agora, nas próximas horas (pediatra ou pronto atendimento, se for noite) — a criança recebe corticoide e fica em observação por 2–4 horas. Nos demais casos, consulta em 24–48 h |
| 🔴 Pronto-socorro agora | Barulho alto e contínuo com a criança calma ou dormindo, que não melhora; pescoço ou costelas afundando muito; agitação que aumenta, ou sonolência; palidez; lábios roxos; baba, dificuldade para engolir ou voz abafada; não consegue falar; febre alta com aspecto muito doente; piora depois de ter melhorado; barulho que "diminui" enquanto o esforço para respirar aumenta (cansaço) | Pronto-socorro agora. SAMU 192 se houver lábios roxos, baba sem conseguir engolir, sonolência ou esforço muito grande |
Crianças que merecem mais atenção
- Bebês com menos de 6 meses (o barulho pode ter outras causas).
- Crianças com estreitamento conhecido da via aérea, que já foram intubadas, com síndrome de Down ou malformações da via aérea.
- Quem já teve crupe moderado ou grave, ou precisou ser internado.
- Doenças do coração, dos pulmões ou neuromusculares.
- Família que mora longe do serviço de saúde ou que terá dificuldade de vigiar a criança à noite.
4.Como cuidar em casa
- Mantenha a criança calma e no colo. O choro e a agitação pioram a falta de ar. Conte histórias, deixe-a na posição em que se sentir melhor.
- Ofereça líquidos aos poucos.
- Febre ou desconforto: antitérmico; uma criança confortável respira melhor.
- Vigie a noite: o crupe costuma piorar de madrugada. Durma perto da criança nos primeiros dias.
- Ar frio (por exemplo, perto de uma janela aberta, bem agasalhada) pode dar alívio, mas não substitui o corticoide nem a avaliação.
- Não use vapor quente (banheiro com chuveiro quente, bacias de água fervendo): não tem benefício comprovado e há risco de queimadura.
- Escola ou creche: pode voltar quando estiver sem febre há 24 horas e bem-disposta.
5.Remédios: o que ajuda e o que evitar
Corticoide em dose única — receitado ou aplicado pelo pediatra:
- É o tratamento que funciona no crupe. Começa a agir em poucas horas e não precisa ser repetido em casa.
- É indicado para toda criança com crupe, inclusive nos casos leves. A dose é calculada pelo médico conforme o peso e a gravidade.
- Nos casos moderados a graves, no consultório equipado ou no pronto-socorro, pode ser feita também inalação com adrenalina. Como o efeito dura cerca de 2 horas, a criança precisa ficar em observação por 2 a 4 horas depois dela, antes de ir para casa.
Para a febre e o desconforto — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:
- Dipirona: 15 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
- Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia). O uso seguido por mais de 48–72 h, principalmente na dose máxima, pode fazer mal ao fígado — nesse prazo, leve para reavaliação.
- Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite na suspeita de dengue, na catapora e na desidratação.
- Não alterne antitérmicos.
O que não usar
- Antibiótico: o crupe é causado por vírus.
- Xaropes para tosse e descongestionantes: não ajudam e podem fazer mal.
- Inalação com soro ou com broncodilatador (salbutamol): não tratam o crupe, a menos que o médico identifique chiado no peito.
- Remédios para dormir ou calmantes: podem esconder sinais de falta de ar. Não use.
6.Quando ir ao pronto-socorro
- Barulho ao respirar com a criança calma ou dormindo, que não melhora.
- Pescoço ou costelas afundando ao respirar; respiração cada vez mais difícil.
- Lábios roxos ou palidez.
- Agitação que aumenta, sonolência ou confusão.
- Baba, dificuldade para engolir, voz abafada ou não consegue falar.
- Febre alta com aspecto muito doente, ou piora depois de ter melhorado.
- Bebê com menos de 6 meses com barulho ao respirar.
Como levar
- Leve a criança sentada no colo, na posição que ela escolher. Não a deite e não tente olhar a garganta.
- Mantenha-a calma: fale baixo, evite o que a faça chorar.
- Não ofereça comida no caminho.
- Lábios roxos, baba sem conseguir engolir, sonolência ou esforço muito grande: ligue para o SAMU 192.
- Leve a caderneta de saúde e informe se ela já recebeu corticoide e em que horário.
7.Como prevenir
- Vacinas em dia: gripe todo ano a partir de 6 meses, COVID-19 e Hib (esta última protege contra a epiglotite, uma infecção grave parecida com o crupe).
- Lavar as mãos e evitar contato com pessoas resfriadas.
- Casa sem fumaça de cigarro.
8.Dúvidas e mitos comuns
O corticoide de uma dose só faz mal? Não. Uma dose única é segura e reduz a chance de piora e de ida ao pronto-socorro.
Por que piora à noite? É uma característica do crupe. Por isso, nas primeiras noites, durma perto da criança.
Banho de vapor ajuda? Não há benefício comprovado, e o vapor quente pode queimar. Manter a criança calma é mais útil.
Meu filho teve crupe várias vezes. É normal? Algumas crianças repetem, mas crupes frequentes, em menores de 6 meses ou diferentes do habitual merecem avaliação da via aérea com o pediatra e, às vezes, com o otorrinolaringologista.
- Crupe é causado por vírus: tosse de cachorro, rouquidão e barulho ao puxar o ar, pior à noite.
- Mantenha a criança calma e no colo; o choro piora a respiração.
- O corticoide em dose única, indicado pelo pediatra, é o tratamento que funciona.
- Barulho ao respirar com a criança calma: avaliação médica agora.
- Lábios roxos, afundamento forte, sonolência ou baba: pronto-socorro, com a criança sentada no colo.
9.Veja também
Veja também, nesta Biblioteca:
- Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
- Resfriado comum e infecções de vias aéreas superiores
- Dor de garganta (faringoamigdalite)
- Convulsão febril e primeira crise
- Vacinação
Versão para profissionais: Laringite viral (crupe) (Patologias do consultório).
Este guia compara as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde, da Academia Americana de Pediatria (AAP), do NICE (Reino Unido), da Associação Espanhola de Pediatria (AEP), do Johns Hopkins, de Harvard (Boston Children's), de Oxford e de Cambridge.
Onde concordam:
- O diagnóstico é feito pelo exame; radiografia quase nunca é necessária.
- Uma dose única de corticoide, receitada pelo médico, ajuda em todas as formas, até nas leves.
- A nebulização com adrenalina é feita só no serviço de saúde, nos quadros moderados e graves, com observação por algumas horas depois.
- Antibiótico não ajuda.
Onde há diferenças:
- Dose do corticoide: nos Estados Unidos (incluindo o protocolo do Johns Hopkins) é comum usar a mesma dose, mais alta, para todos; a SBP e a AEP usam dose menor no crupe leve. Este guia segue a SBP; a dose é decidida pelo pediatra.
- Vapor e umidificador: algumas páginas americanas para famílias ainda os sugerem. Este guia não recomenda vapor quente (não tem benefício comprovado e pode queimar); o ar frio pode aliviar, mas não substitui o corticoide.
Fontes conferidas em outubro de 2026.
10.Fontes
Baseado no documento profissional Laringite viral (crupe) desta Biblioteca e nas referências nele citadas:
- Sociedade Brasileira de Pediatria. Crupe viral e bacteriano (Documento Científico), 2017.
- AEPap. El Pediatra de Atención Primaria y la laringitis aguda — Crup, 2018.
- Smith DK et al. Croup — Diagnosis and Management. American Family Physician, 2018.
- The Royal Children's Hospital Melbourne. Clinical Practice Guideline — Croup, 2024.
- TREKK. Bottom Line Recommendations — Croup, 2023.