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Dor de garganta (faringoamigdalite)

Vírus ou bactéria, quando o antibiótico é necessário e quando procurar ajuda

Conteúdo informativo, em linguagem acessível, para orientar o cuidado do seu filho. Use o semáforo: 🟢 cuidar em casa · 🟡 procure o pediatra · 🔴 pronto-socorro agora. Não substitui a consulta nem a orientação do seu pediatra. 📄 Baixar em PDF

Em poucas palavras

A faringoamigdalite é a inflamação da garganta e das amígdalas. Na maioria das vezes é causada por vírus e melhora em cerca de uma semana, só com analgésico, líquidos e alimentos frios. Uma parte dos casos, principalmente dos 5 aos 15 anos, é causada pela bactéria estreptococo; ela precisa de antibiótico para evitar complicações como a febre reumática. Abaixo de 3 anos essa bactéria é rara. Coriza, tosse, rouquidão, aftas ou olhos vermelhos indicam vírus. Quando o quadro sugere bactéria, o pediatra faz um teste rápido antes de receitar. Vá ao pronto-socorro se a criança não conseguir abrir a boca, ficar com a voz abafada, babar sem conseguir engolir, tiver dificuldade para respirar, pescoço duro ou não conseguir beber.

1.O que é

  • Faringoamigdalite viral (a maioria): causada pelos mesmos vírus do resfriado, da gripe, da herpangina e da doença mão-pé-boca, e pelo vírus da mononucleose.
  • Faringoamigdalite estreptocócica ("de bactéria"): causada pelo estreptococo do grupo A. É mais comum dos 5 aos 15 anos e rara abaixo de 3 anos. Precisa de antibiótico para evitar complicações: abscesso na garganta, doença dos rins (glomerulonefrite) e febre reumática, que pode afetar o coração.
  • Escarlatina: é a infecção pelo estreptococo com manchas vermelhas e ásperas na pele ("lixa"). Trata-se da mesma forma.

2.Como aparece (sinais e sintomas)

Quando sugere vírus: coriza, tosse, rouquidão, olhos vermelhos, aftas ou bolhinhas na boca, diarreia.

Quando sugere estreptococo: dor de garganta que começa de repente, dor para engolir, febre, amígdalas vermelhas e inchadas (com ou sem placas de pus), pintinhas vermelhas no céu da boca, ínguas doloridas na frente do pescoço, dor de cabeça, dor de barriga, enjoo ou vômitos — sem coriza e tosse.

Mononucleose: placas grandes nas amígdalas, ínguas atrás do pescoço, pálpebras inchadas e cansaço que dura semanas.

Placas de pus nas amígdalas aparecem tanto em infecções por vírus quanto por bactéria. Só pela aparência não dá para ter certeza.

3.Semáforo: quando cuidar em casa, quando procurar o pediatra e quando ir ao pronto-socorro

Cor O que você observa O que fazer
🟢 Cuidar em casa Criança bem-disposta; bebe líquidos; abre a boca normalmente; respira sem barulho; a dor melhora com analgésico; sinais de vírus (coriza, tosse, rouquidão) Analgésico, líquidos e alimentos frios. Se o pediatra confirmou estreptococo, antibiótico em casa. Retorne se não melhorar em 48–72 h
🟡 Procure o pediatra Dor de garganta com febre e sem coriza ou tosse, em criança de 3 anos ou mais; dor forte que faz a criança beber pouco, mas sem desidratação; febre que continua depois de 48–72 h de antibiótico; íngua grande no pescoço; suspeita de mononucleose com amígdalas muito grandes Consulta no mesmo dia ou em 24–48 h. O pediatra examina, decide se faz o teste rápido e reavalia a hidratação
🔴 Pronto-socorro agora Não consegue abrir a boca; voz abafada ("de batata quente"); baba sem conseguir engolir; barulho ao respirar ou dificuldade para respirar; pescoço duro, torto ou dolorido para mexer; inchaço de um lado do pescoço; não consegue beber líquidos nem tomar o remédio; sinais de desidratação; muito prostrada ou com aspecto muito doente; placas branco-acinzentadas grudadas na garganta em criança sem vacina Pronto-socorro agora. SAMU 192 se houver dificuldade para respirar ou baba sem conseguir engolir

Crianças que merecem mais atenção

  • Menores de 3 anos com sintomas fortes (pode ser outra doença, como abscesso atrás da garganta).
  • Crianças com imunidade baixa ou em uso de remédios que baixam a imunidade.
  • Quem já teve febre reumática ou tem doença do coração por febre reumática.
  • Vacinação incompleta (difteria).
  • Dificuldade para tomar o antibiótico pela boca todos os dias.

4.Como cuidar em casa

  • Alívio da dor: analgésico nos horários certos, principalmente antes das refeições.
  • Líquidos com frequência: água, leite, sucos não ácidos, picolé e gelatina ajudam.
  • Alimentos frios, macios e pastosos: sopas mornas, purês, iogurte, sorvete. Evite alimentos ácidos, salgados ou duros.
  • Higiene: lavar as mãos e não compartilhar copos e talheres.
  • Escola ou creche: na infecção por estreptococo, pode voltar após 24 horas de antibiótico e sem febre. Na viral, após 24 horas sem febre e bem-disposta.

5.Remédios: o que ajuda e o que evitar

Para a dor e a febre — confira com o pediatra a dose em mL do remédio que você tem em casa:

  • Dipirona: 15 mg/kg por dose, a cada 6 h (no máximo 4 doses por dia); não usar em menores de 3 meses ou 5 kg.
  • Paracetamol: 10–15 mg/kg por dose, a cada 4–6 h (no máximo 5 doses por dia e 75 mg/kg no dia). O uso seguido por mais de 48–72 h, principalmente na dose máxima ou em criança comendo e bebendo pouco, pode fazer mal ao fígado — nesse prazo, leve para reavaliação.
  • Ibuprofeno: 5–10 mg/kg por dose, a cada 6–8 h, a partir de 6 meses; evite na suspeita de dengue, na catapora e na desidratação.
  • Não alterne antitérmicos.

Antibiótico — só com receita, quando o estreptococo é confirmado (ou muito provável, quando não há teste disponível):

  • Teste rápido: a partir de 3 anos, se não houver sinais de vírus, o pediatra colhe material da garganta com cotonete; o resultado sai em minutos. Se negativo, pode pedir cultura.
  • Primeira escolha: penicilina. Pode ser amoxicilina pela boca por 10 dias ou uma única injeção de penicilina benzatina, útil quando é difícil dar o remédio todos os dias.
  • Dê nos horários certos e complete os 10 dias, mesmo que a criança melhore em 1 ou 2 dias. Parar antes aumenta o risco de febre reumática. Não guarde sobras.
  • A febre costuma sumir em 24–48 h de antibiótico. Se continuar depois de 48–72 h, volte ao pediatra.
  • Alergia à penicilina: conte ao pediatra. Cerca de 9 em cada 10 crianças rotuladas como alérgicas toleram o remédio quando investigadas; há alternativas quando a alergia é real.

O que não usar: antibiótico na dor de garganta viral ou com teste negativo; corticoide de rotina; AAS (ácido acetilsalicílico); na suspeita de mononucleose, amoxicilina (costuma causar manchas na pele); antibiótico que sobrou de outra doença.

6.Quando ir ao pronto-socorro

  • Não consegue abrir a boca, voz abafada, ou a campainha da garganta desviada para um lado.
  • Baba sem conseguir engolir, barulho ao respirar ou dificuldade para respirar.
  • Pescoço duro, torto ou doloroso para mexer; inchaço de um lado do pescoço.
  • Não consegue beber nem tomar o remédio; sinais de desidratação (boca seca, pouco xixi).
  • Muito prostrada, com aspecto muito doente.

Como levar

  • Deixe a criança sentada, na posição em que respira melhor. Não force a deitar.
  • Não tente olhar a garganta com colher se ela estiver babando ou com barulho ao respirar.
  • Não ofereça comida no caminho.
  • Dificuldade para respirar ou baba sem conseguir engolir: ligue para o SAMU 192.
  • Leve a caderneta de saúde, os remédios em uso e informe alergias.

7.Como prevenir

  • Vacinas em dia, incluindo a tríplice bacteriana (difteria, tétano e coqueluche) e a da gripe todo ano a partir de 6 meses.
  • Lavar as mãos e não compartilhar copos, talheres e garrafinhas.
  • Tratar corretamente o estreptococo, pelos 10 dias, é a principal forma de prevenir a febre reumática.

8.Dúvidas e mitos comuns

Tem pus na garganta. Precisa de antibiótico? Não necessariamente. Vírus também causam placas. O pediatra decide pelo exame, pela idade e, de preferência, pelo teste rápido.

Gelado causa dor de garganta? Não. Picolé e sorvete até aliviam a dor e ajudam a criança a se hidratar.

Depois do tratamento, preciso refazer o teste? Não, se a criança estiver bem.

O que observar nas semanas seguintes? Procure o pediatra se aparecerem urina escura ou inchaço no rosto e nas pernas (1 a 3 semanas depois), dor e inchaço nas juntas, falta de ar ou manchas na pele.

Meu filho tem 2 anos. Precisa do teste? Geralmente não. Nessa idade a dor de garganta por estreptococo é rara; o pediatra só testa se alguém da casa teve estreptococo ou se o quadro for muito típico.

Lembre-se
  1. A maioria das dores de garganta é causada por vírus e não precisa de antibiótico.
  2. Coriza, tosse e rouquidão indicam vírus; sem esses sinais, o pediatra pode fazer o teste rápido.
  3. Se o estreptococo foi confirmado, dê o antibiótico pelos 10 dias completos.
  4. Febre depois de 48–72 h de antibiótico: volte ao pediatra.
  5. Não abrir a boca, voz abafada, baba, dificuldade para respirar ou pescoço duro: pronto-socorro.

9.Veja também

Veja também, nesta Biblioteca:

  • Sinais de gravidade — quando levar seu filho ao pronto-socorro
  • Resfriado comum e infecções de vias aéreas superiores
  • Laringite viral (crupe)
  • Mononucleose infecciosa (doença do beijo)
  • Ínguas (gânglios aumentados) na criança
  • Convulsão febril e primeira crise
  • Alergia a Medicamentos
  • Vacinação

Versão para profissionais: Faringoamigdalite (viral × estreptocócica) (Patologias do consultório).

O que dizem as referências

Este guia compara as recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), do Ministério da Saúde, da Academia Americana de Pediatria (AAP), do NICE (Reino Unido), da Associação Espanhola de Pediatria (AEP), do Johns Hopkins, de Harvard (Boston Children's), de Oxford e de Cambridge.

Onde concordam:

  • A maioria das dores de garganta é causada por vírus.
  • Quando é estreptococo, penicilina ou amoxicilina são a primeira escolha.
  • Antibiótico e corticoide não são indicados na infecção viral.

Onde há diferenças:

  • Como decidir o antibiótico: o NICE usa uma pontuação de sintomas, pode adiar a receita e aceita cursos de 5 a 10 dias, num país com pouca febre reumática; os EUA (IDSA/CDC) e a AEP exigem teste e mantêm 10 dias. No Brasil, onde a febre reumática ainda acontece, o Ministério da Saúde (AIDPI) admite tratar sem teste quando ele não está disponível.
  • Este guia segue a SBP e o Ministério da Saúde: teste rápido sempre que disponível e, se for estreptococo, amoxicilina por 10 dias ou injeção única de penicilina benzatina.

Fontes conferidas em outubro de 2026.

10.Fontes

Baseado no documento profissional Faringoamigdalite (viral × estreptocócica) desta Biblioteca e nas referências nele citadas:

  • Ministério da Saúde. AIDPI Criança 2 meses a 5 anos, 2017.
  • SBC, SBP e SBR. Diretrizes Brasileiras para o Diagnóstico, Tratamento e Prevenção da Febre Reumática.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Documento sobre pacientes com alergia à penicilina, 2020.
  • IDSA e CDC. Group A Streptococcal Pharyngitis — diretrizes clínicas, 2012 e 2025.
  • NICE. Sore throat (acute) — antimicrobial prescribing (NG84), 2018.
  • Associação Espanhola de Pediatria. Faringoamigdalitis aguda y sus complicaciones.