Abordagem da Criança com Déficit de Crescimento
1.Importância do tema
O déficit de crescimento (também chamado de faltering growth ou, no termo clássico, "falha de medrar") é uma das queixas mais frequentes na puericultura. Não é um diagnóstico em si, mas um sinal que exige avaliação cuidadosa. A grande maioria dos casos decorre de oferta calórica insuficiente, e não de doença orgânica grave — o que torna a anamnese alimentar e o acompanhamento as ferramentas mais valiosas.
2.Definição e antropometria
Não há um único critério; usam-se as curvas de crescimento da OMS e medidas seriadas:
- Peso ou peso para a estatura abaixo do esperado (ex.: abaixo do percentil 3 / escore-z < −2);
- Queda de percentis ao longo do tempo (cruzar duas ou mais faixas para baixo) — mais importante que um valor isolado;
- Avaliar peso, comprimento/estatura e perímetro cefálico, sempre plotados na curva.
A ordem em que os parâmetros caem ajuda: tipicamente o peso cai primeiro (baixa oferta), depois a estatura e, por último, o perímetro cefálico. Quando o perímetro cefálico é afetado precocemente, pensar em causa mais grave (genética, intrauterina, neurológica).
3.Causas (por mecanismo)
| Mecanismo | Exemplos |
|---|---|
| Oferta/ingestão insuficiente (mais comum) | Técnica de amamentação inadequada, diluição errada de fórmula, alimentação não responsiva, restrição/pobreza, dificuldades alimentares, negligência |
| Absorção/utilização inadequada | Doença celíaca, fibrose cística, alergia alimentar, parasitoses, doença inflamatória intestinal |
| Maior demanda/perdas | Cardiopatia, doença pulmonar crônica, infecções de repetição, hipertireoidismo, doença renal |
4.Orgânico x não orgânico
Historicamente divide-se em orgânico (doença de base) e não orgânico/ambiental (psicossocial, alimentar) — mas há sobreposição. A maioria é não orgânica/multifatorial. A anamnese alimentar detalhada e a observação de uma mamada/refeição valem mais que uma bateria de exames.
5.Sinais de alerta (sugerem causa orgânica)
- Vômitos importantes, diarreia crônica, esteatorreia;
- Déficit também de estatura e/ou perímetro cefálico precoce;
- Dismorfismos, atraso do desenvolvimento, sinais neurológicos;
- Infecções graves/recorrentes;
- Organomegalia, sinais de doença sistêmica;
- Não resposta a um aporte calórico adequado bem conduzido.
6.Investigação racional
- História: dietética (o que, quanto, como; técnica de amamentação/preparo da fórmula), gestacional/perinatal, desenvolvimento, doenças, contexto psicossocial;
- Exame físico completo com antropometria plotada e busca de sinais de doença/maus-tratos;
- Exames dirigidos apenas conforme suspeita (não pedir "tudo"): hemograma, ferro, função tireoidiana, eletrólitos/função renal, EAS/urocultura, parasitológico, anticorpos de doença celíaca, teste do suor — guiados pela clínica.
Solicitar exames "em bloco" sem hipótese tem baixo rendimento. A maior parte do diagnóstico vem da história alimentar e do acompanhamento.
7.Manejo
- Corrigir a causa identificada; otimizar a oferta calórica (orientação alimentar, ajustar amamentação/fórmula, densidade energética);
- Acompanhamento próximo com reavaliação do ganho de peso;
- Abordagem multidisciplinar (nutrição, serviço social quando há vulnerabilidade);
- Evitar a "alimentação forçada"; trabalhar o vínculo e a alimentação responsiva;
- Internar se desnutrição grave, desidratação, falha ambulatorial ou risco social.
8.Erros comuns
- Diagnosticar déficit a partir de um único ponto, sem avaliar a trajetória na curva.
- Pedir bateria de exames antes de fazer uma anamnese alimentar detalhada.
- Não observar uma mamada/refeição.
- Ignorar o contexto psicossocial.
- Não reavaliar o ganho após a intervenção.
9.Pontos-chave para a prova
- Déficit de crescimento é sinal, não diagnóstico; usar curvas da OMS e medidas seriadas.
- Mais importante que um valor isolado é a queda de percentis.
- Causa mais comum: baixa oferta calórica (não orgânica).
- Ordem clássica de queda: peso → estatura → perímetro cefálico.
- Investigação guiada pela clínica; anamnese alimentar > exames em bloco.
- Manejo: corrigir causa + otimizar calorias + reavaliar ganho.
10.Casos clínicos comentados
Lactente de 4 meses, em aleitamento materno exclusivo, com ganho de peso lento: caiu do percentil 50 para abaixo do percentil 3 nas últimas semanas. Está ativo, sem vômitos ou diarreia, com bom perímetro cefálico. A mãe relata mamadas curtas, com dor e fissuras, e poucas diureses.
Criança de 18 meses com baixo ganho ponderal, distensão abdominal, fezes volumosas e fétidas e irritabilidade, iniciados após a introdução de alimentos com glúten. Curva de peso e estatura em queda.
11.Referências selecionadas
- World Health Organization. Child Growth Standards (curvas de crescimento).
- NICE. Faltering growth: recognition and management.
- Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP). Avaliação do crescimento e manejo do déficit ponderal.
- Nelson Textbook of Pediatrics — failure to thrive / faltering growth.